quarta-feira, 1 de agosto de 2012

o fim!

...e então chegou o momento, passou, se foi. Segunda-feira, 30/07/2012 às 14h, iniciei o fim de um ciclo na minha vida. Defendi minha tese de doutorado, ainda estou embreagada, não só do porre que tomei depois, mas também pelo estranhamento com a leveza de não ter mais um compromisso que me acompanhou durante muitos anos. Segue abaixo o pequeno conto que escrevi e descaradamente li para dar abertura à adorável "carnificina" de cinco horas... 

Eu, outrem e a temporalidade dessa tese


Fazer uma tese é uma idealidade muito mais antiga do que o surgimento de minha vida nesse mundo. Quando ingressei nesse programa de pós-graduação, me lancei para essa tarefa , de cuja realização vislumbrava como meu futuro, sem dar-me conta, como é o de praxe em todo lançar-se para um futuro idealizado, de que retomava para mim um projeto antigo que não era exatamente meu e por isso mesmo, também como é de praxe, causava muita angústia.

Esse é o hiato também encontrado na própria temática merleau-pontyana. Ele revive as contradições mais antigas da filosofia entre percepção e conhecimento, entre espanto inicial e dogmatismo final. Aquelas velhas que opunham Parmênides e Heráclito, Platão e Aristóteles. No fim, ou melhor, desde o início, a questão que guiou a redação desta tese foi o desafio socrático: “conhece-te a ti mesmo”, posto agora em dúvida, se alguma coisa eu pude descobrir, foi o que a filosofia contemporânea, de um modo geral, já falou a exaustão: não, não se pode conhecer a si mesmo, não se pode mais falar sem ressalvas em consciência, em pensamento, em cogito. Muito menos na dicotomia sujeito-objeto, ela é um pernicioso equívoco.

Por isso mesmo, a angústia por mim revivida nessa tarefa é a retomada de uma angústia fundamental. Ela tem a ver com o fato de que esse ego que construímos para nós mesmos diante da antiguidade da cultura, ao mesmo tempo em que surge como o imperioso senhor de si mesmo, se descobre enquanto pequenino, ínfimo, diante de outrem. Talvez por isso Ponty tenha concluído que somos todos histéricos, no fim o surgimento desse sujeito fictício é oriundo dessa demanda de “aprovação” alheia. Então, o eu, ao mesmo tempo em que deve ser o senhor de si, estar de posse irrevogável de sua própria definição, nunca consegue de fato sê-lo.

Ademais, essa discrepância entre o lançar-se para um futuro antigo, onde o sujeito que se lança não consegue fixar seu presente parece-me estar bem ‘visível’ na discrepância entre as duas grandes partes desse escrito. Na primeira metade, vê-se uma autora ansiosa por cumprir esse ideal de uma tese acadêmica rigorosa do ponto de vista da pesquisa e também da inovação. Ao passo que na segunda metade encontra-se alguém que descobriu a antiguidade desse projeto e a impossibilidade de atualizá-lo tal como fora premeditado. Não ao menos sem sacrificar a possibilidade de que ele de algum modo viesse a ser uma fala falante, isto é, viesse a re-configurar a significação possível para as teorias investigadas de modo a dizer delas aquilo que ainda não foi dito — justamente o télos mor de uma tese doutoral.

E, eis que a minha historiazinha nessa tese repetiu, de modo bem mais modesto obviamente, aquela já vivida pelo filósofo de nome de vinho (que eu quis beber até me embriagar), ele reconheceu no final de seus escritos quanto de idealismo manteve na gana de desfazer-se de postulados ideais. No meu caso, no último suspiro, no último momento, vi voltar a Elizia idealista, que saída do interior do Paraná chegou à ilha de Santa Catarina para fazer o mestrado, aquela apaixonada por Husserl e por seu rigor inatacável. Depois de muito relutar em admitir a reforma proposta em "O Visível e o Invisível", visto que eu sonhava provar que o dualismo era uma postura intransponível em filosofia, quando finalmente acreditava ter sucumbido aos argumentos mais sedutores do texto póstumo de Ponty, com esses conceitos tão sensuais, tais como o de carne, quiasma, descentramento e resolvi me entregar a proposta indecente de uma sobrerreflexão não intuitiva. Fui flagrada no emprego da noção mais desconcertante - aquela de quiasma - como uma neutralização da diferenciação, que no fundo, a retenção de meu passado idealista não conseguia admitir, por isso ficava a impressão de que o quiasma asseguraria um cogito anônimo, universal. Foi preciso rever isso e enquanto revia, pensei neste texto que agora leio, concluí que vivi a experiência temporal sobre a qual escrevia sem entender direito, conclui que meu passado retido era presente na ausência e que sem que eu representasse o idealismo que foi um dia minha paixão, eu o presentificava inadvertidamente.

Foi também quando aprendi abandonar o ideal de que essa tese fosse minha que encontrei uma terapia para angústia e pude “concluí-la”, quando aceitei que falaria do horizonte do alheio, de outrem, que não me pertencia. Que ela não era a realização de um projeto meu, mas já antigo, que eu apenas retomava com a pretensão de posse, pretensão essa que faz parte do processo de realização de qualquer projeto. Que nela não me encontrava, mas me perdia, então pude deixá-la fluir. Que ela só faria sentido quando eu compreendesse que aquilo que ela me devolve, não é algo meu, um produto de minhas reflexões, porque se a tese sobre a reflexão que defendo for coerente, o que ela me faz descobrir é o olhar de outrem sobre mim, a evidência de que eu existo, mas que sou outra.

Daí que o descompasso entre as duas metades, na primeira eu queria a todo custo minha liberdade de autora-pequisadora-filósofa, dona de si, na segunda a conquistei, justamente quando abri mão desse ideal. O que exponho agora para vossa apreciação é um oximoro de mim, sou eu, minha história pessoal, minhas angústias e conquistas, travestido de um outro eu, a acadêmica que assim deve ser julgada.