segunda-feira, 25 de julho de 2011

viagem no tempo ou sobre o "marché aux puces saint-ouen"

Mesmo meu tempo estando escasso e esmagador, ontem eu o ludibriei me permitindo um passeio ao "Mercado de pulgas Saint-Ouen", que há muito planejava conhecer. Foi como voltar num passado desconhecido e imaginário. O próprio mercado já data do fim do século XIX (http://www.parispuces.com/FR/historique/) e os "puciers" nos oferecem pequenas (e grandes também) chaves para uma viagem no tempo!
Junto com meus adoráveis e extemporâneos guias, Marcelo e Michele, explorei algumas galerias do lugar que é (como tudo aqui) enorme! Cada "barraquinha" é como um pequeno museu, sem ordem categorial de classificação, do kitsch, ao clássico, ao brega... Encontramos lá objetos de épocas, pessoas de épocas! E pensar que cada colher, cada colar, cada "ovinho" de porcelana, cada coisa tem uma história, uma trajetória própria, foi vendida, foi doada, foi jogada no lixo, etc. e depois de tantos caminhos fez um furo na sua temporalidade e agora cá está, exposta e, muitas vezes, super-valorizada... Enchi meus olhos, minha imaginação, fui e voltei. De brinde, para fechar o dia, uma bière à pression (nosso bom e velho chop!) num barzinho de jazz onde músicos chegam e tocam aleatoriamente, um lugar já freqüentado por Django Reinhardt! Uau, adoro viajar longe em poucos quilômetros, foi uma bela tarde domingo!

 

 




 






 



sábado, 16 de julho de 2011

muito, pouco, tempo

Da cadeira da minha mesa de estudos para a cama, eis o curtíssimo trajeto que cumpro nas horas em que o corpo não aguenta mais a posição ingrata e o pensamento se confunde com as inúmeras possibilidades que tem um texto! Estou em fase de escrita, fase de angústia e ansiedade. Minha matéria prima é a confusão de hipóteses e interpretações que tenho, que li, que acumulei até aqui. Tudo parece um "excesso insuficiente". É engraçado como uma paráfrase vai se juntando a outra, se associando com concepções velhas, ganhando vida, deixando de ser o que é, rumo à autenticidade esperada. Fico insegura. É normal...

A passagem do tempo parece me massacrar. Sinto que já estou alhures, distante de Paris, e ainda há tanto que quero explorar! Mas, meu dever - que desejo levar à cabo com o melhor de mim - me impede! Talvez, mais o modo como lido com ele, que o dever em si. Isso não importa. Não posso fazer diferente agora...

Entre um paragrafo e outro, hesito, olho pela janela. Que imagem triste. E pensar que Paris tão bela está logo ali... Como no dia 14 de julho, em que se comemora a queda da Bastille. Ah, a Torre estava deslumbrante de onde a via. Antes do show de fogos, um pôr-do-sol escandaloso de tão "alaranjadamente" lindo. Não tenho fotos do show, a bateria da máquina acabou antes que ele começasse. Cômico, isto me fez pensar que minha bateria também vai acabar, se não antes, ao menos, na metade do show que é a vida nesta cidade inesgotável... Um ano é tão pouco, é muito pouco e "... muito para mim é tão pouco, e pouco é um pouco demais, viver tá me deixando louca, não sei mais do que sou capaz..." (Moska). Ao mesmo tempo, este alaranjado me lembrou do entardecer no interior do oeste paranaense: um ano é muito tempo! E já faz bem mais do que isso que saí de lá. Será que ainda vou achá-lo "tão tão" lindo? Sei que vou, sempre foi uma das coisas que eu mais gostei no "velho oeste"... Mas, será que ele vai me reconhecer? Só um detalhe desconcertante, não é para lá que volto. Primeiro, não teria como voltar de um lugar d'onde já não parto mais. Depois, a verdade é que não volto para lugar nenhum. A ilha é uma promessa para mim. Uma linda promessa, um futuro-passado que já me faz falta antes de faltar...

Acho que a confusão de uma tese, por mais despretensiosa que ela seja, se espalha pelo corpo todo!

Numa das estradas do velho oeste...
O entardecer do 14 de julho...

O cantinho da sonífera ilha que
me acolheu n'algum momento...

E por fim, uma música que re-encontrei dia desses num belo composé:

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Brincando em Praga*

Post especial para Kelly e Fabi:
lembrei muito de vocês!

Quando, no dia 21 de junho, passeei por Paris aproveitando a fête de la musique que invadia cada cantinho da cidade, eu não podia imaginar que se tratava de um prelúdio do que seria Praga.

Por aqui eu me encantei, Paris num dia ensolarado de verão com trilha sonora é algo!

Por lá, aprendi que a capital da República Tcheca é também a capital da música, parece fête de la musique o tempo todo! Chegamos no sábado, logo após almoço, nos crendo milionários (1euro vale mais ou menos 24coroas). Tínhamos que "matar tempo" durante a tarde; não podíamos fazer nada que a Dete**, nossa companheira de viagem (que chegaria só no fim da noite), pudesse querer fazer também. Sem pressa e sem muitos destinos (afinal, já estávamos no destino), do aeroporto, desembarcamos inadvertidamente na praça Wenceslau (se bem que só percebi no outro dia). Descobrimos o Museu Nacional onde compramos ingressos para assistir um concerto que se daria lá mesmo mais tarde. No programa, Mozart, Vivaldi, Bach e Dvorak. Ficávamos sentados na escadaria enquanto os músicos executavam com seus instrumentos (incluso aí um cravo) os trechos. Foi lindo! Um ótimo começo!

A cidade é indescritível nos seus milhares de aspectos. Ela é muito diferente (eu não sou o melhor dos parâmetros, mas, voilà). Apesar de inundada de turistas, parece ter parado no tempo. A arquitetura é muito especial, faz Praga parecer viva e voluntariosa. Tudo é assimétrico (nada cartesiano como Paris), suas ruas são tortas, os prédios também. Há aglomerados de igrejas e sinagogas tão próximas, que ficamos sem entender o porquê. Em cada prédio, cada fachada, para onde se olha há inúmeros detalhes, estátuas, flores... Há um certo colorido envelhecido que me encheu olhos. Eu não cansava de repetir: que cidade linda!

Não entramos em nenhum "lugar", a não ser no complexo de sinagogas que compõe um museu da história do judaísmo (o passe incluía um passeio pelo antigo cemitério judeu). Afora isto, descobríamos coisas a cada esquina - que constavam ou não no guia que inultimente comprei (visto que perdi ;( ). Desde jardins, pontes e mais concertos, até pavões, corujas gigantes e falcões. Rodeamos o Castelo, tão complexo quanto a cidade. Nos perdemos (literalmente) na ponte Carlos IV. Acabamos com nossas coroas na metade da viagem. Comemos comida de nomes difíceis, bem gostosas e pesadas. Fomos num "pub" de 1499,  chamado U Fleku*** que fabricava a própria e deliciosa cerveja. Brincamos pela cidade, enfim. Selecionarei algumas imagens e montarei um álbum para ver se consigo expressar um pouquinho mais estas impressões que contam entre as mais lindas que tive nestes 10 meses de sanduíche! (clique aqui para ver o álbum)

E por falar nisto, faltam exatamente dois meses para o meu retorno. Muitas das pessoas que eu conheci tão logo cheguei (e que fizeram parte do que é Paris para mim) já partiram. Eu também já me sinto em despedida... Este mês quero dedicar a escrita da minha tese, que começa a querer sair da minha cabeça. Tenho dormido pouco e me sinto relativamente angustiada, mas não chega a ser um sofrimento. Mil conexões estão se fazendo para mim, só preciso conseguir canalizá-las de um modo inteligível.

À toute ;)

* o título é para aludir a um livro do Milan Kundera (vulgo MK), que eu adoro, chamado "A brincadeira", gostaría de relê-lo e quem sabe escrever sobre numa outra hora; por ora posso dizer que o autor é um dos motivos pelos quais eu ansiava conhecer a cidade,
** ótema por sinal!!
*** indicação da Luiza, (merci!) que eu resolvi carinhosamente designar como o "Le Fleurus" de Praga!