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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

o fim!

...e então chegou o momento, passou, se foi. Segunda-feira, 30/07/2012 às 14h, iniciei o fim de um ciclo na minha vida. Defendi minha tese de doutorado, ainda estou embreagada, não só do porre que tomei depois, mas também pelo estranhamento com a leveza de não ter mais um compromisso que me acompanhou durante muitos anos. Segue abaixo o pequeno conto que escrevi e descaradamente li para dar abertura à adorável "carnificina" de cinco horas... 

Eu, outrem e a temporalidade dessa tese


Fazer uma tese é uma idealidade muito mais antiga do que o surgimento de minha vida nesse mundo. Quando ingressei nesse programa de pós-graduação, me lancei para essa tarefa , de cuja realização vislumbrava como meu futuro, sem dar-me conta, como é o de praxe em todo lançar-se para um futuro idealizado, de que retomava para mim um projeto antigo que não era exatamente meu e por isso mesmo, também como é de praxe, causava muita angústia.

Esse é o hiato também encontrado na própria temática merleau-pontyana. Ele revive as contradições mais antigas da filosofia entre percepção e conhecimento, entre espanto inicial e dogmatismo final. Aquelas velhas que opunham Parmênides e Heráclito, Platão e Aristóteles. No fim, ou melhor, desde o início, a questão que guiou a redação desta tese foi o desafio socrático: “conhece-te a ti mesmo”, posto agora em dúvida, se alguma coisa eu pude descobrir, foi o que a filosofia contemporânea, de um modo geral, já falou a exaustão: não, não se pode conhecer a si mesmo, não se pode mais falar sem ressalvas em consciência, em pensamento, em cogito. Muito menos na dicotomia sujeito-objeto, ela é um pernicioso equívoco.

Por isso mesmo, a angústia por mim revivida nessa tarefa é a retomada de uma angústia fundamental. Ela tem a ver com o fato de que esse ego que construímos para nós mesmos diante da antiguidade da cultura, ao mesmo tempo em que surge como o imperioso senhor de si mesmo, se descobre enquanto pequenino, ínfimo, diante de outrem. Talvez por isso Ponty tenha concluído que somos todos histéricos, no fim o surgimento desse sujeito fictício é oriundo dessa demanda de “aprovação” alheia. Então, o eu, ao mesmo tempo em que deve ser o senhor de si, estar de posse irrevogável de sua própria definição, nunca consegue de fato sê-lo.

Ademais, essa discrepância entre o lançar-se para um futuro antigo, onde o sujeito que se lança não consegue fixar seu presente parece-me estar bem ‘visível’ na discrepância entre as duas grandes partes desse escrito. Na primeira metade, vê-se uma autora ansiosa por cumprir esse ideal de uma tese acadêmica rigorosa do ponto de vista da pesquisa e também da inovação. Ao passo que na segunda metade encontra-se alguém que descobriu a antiguidade desse projeto e a impossibilidade de atualizá-lo tal como fora premeditado. Não ao menos sem sacrificar a possibilidade de que ele de algum modo viesse a ser uma fala falante, isto é, viesse a re-configurar a significação possível para as teorias investigadas de modo a dizer delas aquilo que ainda não foi dito — justamente o télos mor de uma tese doutoral.

E, eis que a minha historiazinha nessa tese repetiu, de modo bem mais modesto obviamente, aquela já vivida pelo filósofo de nome de vinho (que eu quis beber até me embriagar), ele reconheceu no final de seus escritos quanto de idealismo manteve na gana de desfazer-se de postulados ideais. No meu caso, no último suspiro, no último momento, vi voltar a Elizia idealista, que saída do interior do Paraná chegou à ilha de Santa Catarina para fazer o mestrado, aquela apaixonada por Husserl e por seu rigor inatacável. Depois de muito relutar em admitir a reforma proposta em "O Visível e o Invisível", visto que eu sonhava provar que o dualismo era uma postura intransponível em filosofia, quando finalmente acreditava ter sucumbido aos argumentos mais sedutores do texto póstumo de Ponty, com esses conceitos tão sensuais, tais como o de carne, quiasma, descentramento e resolvi me entregar a proposta indecente de uma sobrerreflexão não intuitiva. Fui flagrada no emprego da noção mais desconcertante - aquela de quiasma - como uma neutralização da diferenciação, que no fundo, a retenção de meu passado idealista não conseguia admitir, por isso ficava a impressão de que o quiasma asseguraria um cogito anônimo, universal. Foi preciso rever isso e enquanto revia, pensei neste texto que agora leio, concluí que vivi a experiência temporal sobre a qual escrevia sem entender direito, conclui que meu passado retido era presente na ausência e que sem que eu representasse o idealismo que foi um dia minha paixão, eu o presentificava inadvertidamente.

Foi também quando aprendi abandonar o ideal de que essa tese fosse minha que encontrei uma terapia para angústia e pude “concluí-la”, quando aceitei que falaria do horizonte do alheio, de outrem, que não me pertencia. Que ela não era a realização de um projeto meu, mas já antigo, que eu apenas retomava com a pretensão de posse, pretensão essa que faz parte do processo de realização de qualquer projeto. Que nela não me encontrava, mas me perdia, então pude deixá-la fluir. Que ela só faria sentido quando eu compreendesse que aquilo que ela me devolve, não é algo meu, um produto de minhas reflexões, porque se a tese sobre a reflexão que defendo for coerente, o que ela me faz descobrir é o olhar de outrem sobre mim, a evidência de que eu existo, mas que sou outra.

Daí que o descompasso entre as duas metades, na primeira eu queria a todo custo minha liberdade de autora-pequisadora-filósofa, dona de si, na segunda a conquistei, justamente quando abri mão desse ideal. O que exponho agora para vossa apreciação é um oximoro de mim, sou eu, minha história pessoal, minhas angústias e conquistas, travestido de um outro eu, a acadêmica que assim deve ser julgada.

domingo, 24 de junho de 2012

se eu corro...

... ou diálogo com amigos-poetas ... ou sobre fazer cafuné com a palavra escrita...

"ela: Meu amor, tô quase na curva final, prestes a bater e a dar perda total." (sempre dramática!)
"ele:  Então... acelere, acelere meu amor... Ao ponto mesmo de desantenar os pés da poeira do passado que habita o chão... E chegar, enfim, a um céu repleto apenas de doces pétalas de um bom e sorridente amanhã. Bj e saudade"

"ela:  tá quase... mas, eu vi tua carinha no google+ hoje e deu uma saudade!! aí parei só para te dizer isso! bisous mon ami!"
"ele: Fica firme aí nessa reta final para a liberdade... Também estou com saudades. Queria muito de dar um abração de urso bem apertado, porque nessas horas parece que é só disso que a gente precisa! Beijo T."

"ele: gata, espero q este seja mesmo o teu e mail... escrevo pra dizer q entreguei a tese...inacabada, como eu, mas nao tinha mais tempo. Mas o principal é que estou com saudades, e quero saber como vc está, e quando nos veremos"
"ela: Gato, eu to mesma q tu, tenho poucos dias p entregar a tese e mta coisa p terminar... Fico feliz q tu tenhas entregue. Qnd é a defesa? Assim q eu terminar te aviso. To com saudadona tbem!!! Bjobjo"
"ele: 6 de julho... nao é mentira, relaxa, é possível mesmo nessas horas...."
"ela: Lindo!! Suas palavras me fizeram um carinho na alma! Ao trabalho!!!"


"ela: Acreditas que paixão pode ser fenix? Me sinto sem passado..."
"ele: Sim, pois se é verdade que as cinzas atestam que a fala falada (idealide pura) morreu, elas são os rastros que marcam a co-presença do perdido, insondável, queimado (idealidade de horizonte, significação existencial)... E o perdido dói qual paixão, como a paixão que, no teu olhar cinzento, me faz desejar a ave que se escreve na tua tese. E, então, a dor passa a ser minha, queimando em minha esperança...."



segunda-feira, 4 de junho de 2012

TES(ão)

ai de mim com esse gozo entupido,
com esse prazo apertado.
enquanto penso, meus dedinhos tarados querem
bater uma, bater duas, bater várias,
eu gemo e me contorço toda,
na cadeira, pelos corredores, deitada
pensar é transar com conceitos,
transar os conceitos,
é verdade o que me disseram no primeiro ano da faculdade:
filosofia é masturbação mental!
a ejaculação é aquela que ocorre aos poucos,
sai pela ponta dos meus dedos,
com o barulho tic-tic nervoso das teclas
ela não é precoce,
já vem tarde,
pois que venha!

(isto não é um poema
não é um conto
não tem método
é só um isso e .)


segunda-feira, 21 de maio de 2012

com quantos paus se faz uma tese?

dois livros do leminski
um caso mal resolvido
um amor amigo
uma separação
mil corações partidos
muito tesão

sem paixão não se escreve
nada que valha a pena ser escrito
com paixão também não
só que é mais gostoso

foda-se
hora de lambuzar
páginas em branco
com essa porra toda!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

ainda sobre falar

Falar é um ato infindo, um horizonte aberto, um buraco. Falamos, falamos, falamos, temos a impressão imediata de que tudo foi dito, certo alívio... Tudo passageiro. Logo vem aquela sensação de que ficou algo para trás e começamos a pensar no que deveríamos ter falado, no que deveríamos ter calado... No fim, tudo por conta da ilusão de que se pode esgotar um sentimento, um pensamento, um desejo... Ora, mas se a fala é a manifestação desse desejo, não como ferramenta, mas como próprio ato de desejar, sentir e pensar, se ela é o tocar do nosso corpo afetivo, ela não poderia mesmo dar conta de si (quando se toca, o corpo se apaga enquanto tocante e não pode tocar e visualizar plenamente a si mesmo) e é apenas quando o sentir, o desejar e o pensar se calam que podemos, ao nos lembrar do vivido, falar sobre ele como quem se afastou um pouco, pois será então, um outro pensamento, um outro sentimento, um outro desejo que se manifesta... Nos momentos de confusão de desejos, pensamentos e sentimentos, não se fala com sentido, ou se fala com excesso de sentido, tanto que não nos fazemos compreender e sequer nos compreendemos. Não existe isso de 'organizar ideias', em momentos de turbilhão, é preciso simplesmente deixar que elas se organizem por conta própria, esperar... Falar na terapia, falar para os ouvidos amigos, falar, falar, até que a letra mude e traga um pouco de paz, por um período que antecederá novas confusões...
 

Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu...
Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu...
Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu...
Oh! Oh!...Oh! Oh!
Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Um capricho do sol
No jardim do céu...
Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu...
Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu...

sexta-feira, 16 de março de 2012

o outro, eu e os velhos enredos...

Há tempos escrevi um post sobre lugares-comuns... Contaminada que estou pela minha própria vida e pela minha própria tese, tenho pensado muito nos enredos comuns. Quer dizer, se existem certas frases que sempre cabem para certos momentos, isso significa que as histórias se repetem. Arrisco a dizer que há um número que pode até ser grande, mas limitado, de enredos para atuarmos na vida. Atuarmos, humpf! Me parece mesmo que é só o que nos resta, quando muito poderíamos escolher em que papel jogaríamos, mas, mesmo quanto a isso ainda tenho minhas dúvidas. Quem é que os escreve afinal? E quem é que dirige essa peça? A acadêmica que mora em mim tem uma resposta pronta: o outro! Que outro?? Aquele que não sou eu, que não é ninguém e que decidiu que as pessoas se apaixonam e sofrem e se apaixonam e sofrem de novo, que são filhos e pais, irmãos, melhores amigos, inimigos declarados, preguiçosos ou brasileiros que não desistem nunca! Aí quando vem o adolescente desabafar seus problemas com os pais, nós podemos dizer: calma, isso é uma fase, logo você vai ver que eles têm razão! É a mesma história que se repete, por isso temos uma fala pronta (a fala falada para os iniciados em Merleau-Ponty), e aí "eu" posso me justificar, afinal, embora seja de escorpião, tenho ascendente e vários astros em virgem, isso explica tudo! E nós vamos bailando entre uma definição e outra e, de vez em quanto, algum poeta, algum artista ou algum movimento fala algo nunca dito (fala falante), rompe com o idealizado, para logo se tornar idealidade também...

Eu costumava pensar que me encontrava nos meus amores e amigos, mas, vou me dando conta de que justamente me perco, o que amo neles é o que não sou eu, eles não me devolvem uma imagem-reflexo, ao contrário, eu me construo a partir disso neles que eu não possuo, e por isso nunca chego a ser um 'eu', embora, crie para mim uma história e uma definição que me dão uma ilusão egóica de ser a dirigente de minhas ações... Assim eu declaro que sou feminista, mas não muito, que gosto de guarda-chuvas, bicicletas, sexo e mpb, tenho medos bobos, não sei mergulhar sem tapar o nariz e nem o que fazer no próximo semestre!


domingo, 8 de janeiro de 2012

ano novo, vida velha!

Às vezes eu fico com raiva, raiva de ter escolhido esta vida acadêmica que me leva a lugares lindos e, ao mesmo tempo, me arranca deles e me trancafia no calor de um escritório. Enquanto pensava nisto (e não na tese) o sol brilhava na janela do meu quarto e eu podia ouvir a praia a me convidar para um banho de mar! A raiva, no entanto passa, pois não sou de guardar mágoas e nada mais me resta se não acabar logo com este trabalho que já está na "curva final", ademais, graças ao confinamento, faço algumas viagens também, fico saltitando entre um texto filosófico, vários literários, a vida alheia das redes sociais e outras coisitas internéticas.

Eis algumas belezuras que encontrei hoje e que acho dignas de serem partilhadas...

sobre filósofos e filosofia:

Le philosophe parle, mais c’est une faiblesse en lui, et une faiblesse inexplicable: il devrait se taire, coïncider en silence, et rejoindre dans l”Être une philosophie qui y est déjà faite. (Merlau-Ponty, Le visible et l'nvisible, p.164)

"O filósofo fala, mas isto é uma fraqueza nele, e uma fraqueza inexplicável: ele deveria se calar, coincidir em silêncio e encontrar no Ser uma filosofia já aí feita."

sobre o amor:

"O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quande se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epístola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um post-scriptum..." (Machado de Assis, A mão e a luva, p. 13)

sobre a impressão da passagem do tempo:

"A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuseram a linha dos cinqüena divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que já não dão à vida toda a flor dos seus primeiros anos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como no tempo deles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as coisas com os olhos da idade. Os recreios da juventude não são decerto igualmente nobres, nem igualmente frívolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento não é dela, - a pobre juventude -, é sim do tempo que lhe cai em sorte." (Machado de Assis, A mão e a luva, p. 14)

por fim, sobre tudo, nada, algumas coisas:


"- Eh ! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger ?
 - J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages !" (Baudelaire, trecho do fragmento L'étranger da obra Le spleen de Paris, p. 7)

" - Eh! que amas tú então, extraordinário estrangeiro?
  - Eu amo as nuvens... as nuvens que passam... lá... lá... as maravilhosas nuvens!"

;)

domingo, 18 de dezembro de 2011

".. três passos e minhas pernas já estão pensando..."

hoje fez um lindo dia de sol, quente, daqueles perfeitos para se passar na praia! Eu o passei sentada no meu escritório, derretendo de vontade de um mergulho, mas, apesar disto, feliz com o rendimento do trabalho. A corrida do fim da tarde foi como um merecido presente, durante ela pensei sobre correr!
Desde que minha querida "personal-amiga" Miriam me pôs para correr, há um tempo atrás, me encantei pela prática, às vezes até dói, depende muito do estado do corpo, mas a sensação depois é sempre de um cansaço gostoso que nos põe para dormir relaxados.
Para além dos benefícios fisiológicos, entrentanto, que podem ser explicados pela produção de não sei bem quais substâncias (endorfina, morfina, ou que quer seja...), a corrida para mim tem um "quê" a mais. Hoje me dei conta de que é uma forma peculiar de me relacionar com a cidade, com meu bairro, com o meu entorno enfim. Sair para correr é sair para lugar nenhum e, embora eu sempre faça um percurso parecido, ele é sem intenção, basta ir e voltar e sigo, curtindo a paisagem, reparando nos transeuntes, nos cachorros, nos carros... Com minha seleção de músicas que vai de Marie Tout Court à Martinalia, de Belchior à The Cure, passando por Guinsbourg, Lail Arad, Cartola e etc e tal, eu me entrego ao caminho, aprendo a gostar das peculiaridades dele, acabo me apaixonando. Meu trecho ultimamente tem sido a Beira-Mar de São José, hoje particularmente estava muito agradável, o calor do verão suavizado com a brisa do mar, as pessoas felizes, famílias fazendo as compras para o Natal! Até sentir meu joelho reclamando, estava entregue ao ritmo da marcha e me lembrei do poema do Leminski, com o qual me despeço...
 
  Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando. 
  Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

  Aonde vão dar esses passos? 
Acima, abaixo? 
 Além?  Ou acaso 
se desfazem no vento
 sem deixar nenhum traço?
         (Paulo Leminski, La vie en close)

Piscadinhas :)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sobre muitas coisas!

o velho lago municipal de Toledo...

fui e voltei, viagem a terra dos pinheiros, lugar onde nasci, cresci e d'onde parti. é estranho voltar... mas, é bom. reencontrei e me encontrei, me vi nos olhares da infância perdida e da adolescência sonhadora. tenho pensado em muitas coisas desde então, sobre a importância dos amigos, que nos mostram quem somos, quando nos esquecemos ou nos perdemos, sobre a solidão do gozo, sobre decepções e decepcionar, sobre a partilha das gargalhadas, das aflições e dos medos, sobre a dificuldade em se concluir uma tese, sobre fazer planos, sobre saudade orgânica... enfim, tudo meio assim,
... e seus novos personagens...
desordenado mesmo, pois é deste modo que as coisas se configuram nas minhas pensações atualmente.
recentemente reencontrei um poema batido sobre a amizade, mas tão eu, na minha prosmícuidade de relações sociais, que vou compartilhá-lo aqui. desnecessário dizer, que apesar de toda confusão, me sinto "blessed and locky" como na música do 10.000 maníacs e que contra o dito popular de que os amigos se podem contar com os dedos de uma mão, felizmente os meus ultrapassam os das duas, o que faz da minha personalidade um mosaico dos mais diferentes tipos que se possa imaginar! adoro esta flexibilidade, essa capacidade de adaptação, ela me faz mais forte, não mais fraca como poderia parecer, afinal me adapto as situações diversas e posso contar com os distintos apoios e sê-lo quando necessário for, assim espero...
enfim, tanto, mas não muito, é o que temos por hoje!
piscadinhas ;)

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto
e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,
eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos,
enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos !

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos
e o quanto minha vida depende de suas existências ...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade,
não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem noção de como me são necessários,
de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital,
porque eles fazem parte do mundo que eu,
tremulamente, construí,
e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.

E me envergonho, porque essa minha prece é,
em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer ...
Se alguma coisa me consome e me envelhece
é que a roda furiosa da vida
não me permite ter sempre ao meu lado,
morando comigo, andando comigo,
falando comigo, vivendo comigo,
todos os meus amigos, e, principalmente,
os que só desconfiam
- ou talvez nunca vão saber -
que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.
Vinicius de Moraes

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"Cartas a um jovem poeta"

... ou sobre as angústias da escrita, eu diria...

"Tu me perguntas se teus versos são bons. E sou eu que te interrogo. Anteriormente, pediste a opinião de outras pessoas. Enviaste estes versos a revistas. Os comparas a outros poemas e te inquietas quando certas redações recusam teus ensaios. Já que me autorizastes a te dar alguns conselhos, rogo que cesse com tudo isso. Teu olhar está voltado para o exterior, é primeiramente isto que não deverias mais fazer de agora em diante. Ninguém pode te aconselhar, nem te ajudar, ninguém. Existe apenas um único meio: mergulha em ti mesmo; procure pela razão que te impele a escrever; examine se esta razão estende suas raízes até as mais profundas extremidades de teu coração; respondei francamente à questão de saber se serias condenado a morrer caso te fosse recusado escrever. Antes de qualquer coisa, te questione, na hora mais tranqüila da tua noite: é necessário que eu escreva? Escave a ti mesmo a procura de uma resposta profunda..."
(RILKE, Rainer Maria. Lettres à un jeune poète. Traduction et presentaton de Marc B. de Luany. Gallimard, 1993)

domingo, 7 de agosto de 2011

confusão de estações...

para um amigo...

... aqui é verão!? Mas, Paris não está com cara de verão, tem chovido com muita freqüência, feito um tempo "fresquinho" e nos poucos dias de calor fica bastante abafado. Por conta disso, a paisagem está confusa e vez por outra "damos de cara" com uma fotografia de outono! Assim como a cidade, também eu estou perdida. Passo pelas quatro fases da lua, por todas as estações do ano, tudo num só dia. Saudade de acolá, nostalgia daqui. Ansiedade por voltar, vontade de ficar mais um pouquinho. Carência e necessidade de estar só. Gula na falta de apetite. Insônia sonolenta... Tem vezes que "mil palavras" valem como aquele abraço mais sensível... Ah Paris que je te quitte... Acho que finalmente chegou a hora dessa música para mim!
Hoje falta extamente um mês...


 Piscadinhas ;)

sábado, 16 de julho de 2011

muito, pouco, tempo

Da cadeira da minha mesa de estudos para a cama, eis o curtíssimo trajeto que cumpro nas horas em que o corpo não aguenta mais a posição ingrata e o pensamento se confunde com as inúmeras possibilidades que tem um texto! Estou em fase de escrita, fase de angústia e ansiedade. Minha matéria prima é a confusão de hipóteses e interpretações que tenho, que li, que acumulei até aqui. Tudo parece um "excesso insuficiente". É engraçado como uma paráfrase vai se juntando a outra, se associando com concepções velhas, ganhando vida, deixando de ser o que é, rumo à autenticidade esperada. Fico insegura. É normal...

A passagem do tempo parece me massacrar. Sinto que já estou alhures, distante de Paris, e ainda há tanto que quero explorar! Mas, meu dever - que desejo levar à cabo com o melhor de mim - me impede! Talvez, mais o modo como lido com ele, que o dever em si. Isso não importa. Não posso fazer diferente agora...

Entre um paragrafo e outro, hesito, olho pela janela. Que imagem triste. E pensar que Paris tão bela está logo ali... Como no dia 14 de julho, em que se comemora a queda da Bastille. Ah, a Torre estava deslumbrante de onde a via. Antes do show de fogos, um pôr-do-sol escandaloso de tão "alaranjadamente" lindo. Não tenho fotos do show, a bateria da máquina acabou antes que ele começasse. Cômico, isto me fez pensar que minha bateria também vai acabar, se não antes, ao menos, na metade do show que é a vida nesta cidade inesgotável... Um ano é tão pouco, é muito pouco e "... muito para mim é tão pouco, e pouco é um pouco demais, viver tá me deixando louca, não sei mais do que sou capaz..." (Moska). Ao mesmo tempo, este alaranjado me lembrou do entardecer no interior do oeste paranaense: um ano é muito tempo! E já faz bem mais do que isso que saí de lá. Será que ainda vou achá-lo "tão tão" lindo? Sei que vou, sempre foi uma das coisas que eu mais gostei no "velho oeste"... Mas, será que ele vai me reconhecer? Só um detalhe desconcertante, não é para lá que volto. Primeiro, não teria como voltar de um lugar d'onde já não parto mais. Depois, a verdade é que não volto para lugar nenhum. A ilha é uma promessa para mim. Uma linda promessa, um futuro-passado que já me faz falta antes de faltar...

Acho que a confusão de uma tese, por mais despretensiosa que ela seja, se espalha pelo corpo todo!

Numa das estradas do velho oeste...
O entardecer do 14 de julho...

O cantinho da sonífera ilha que
me acolheu n'algum momento...

E por fim, uma música que re-encontrei dia desses num belo composé: