terça-feira, 19 de novembro de 2013

A felicidade é um rococó francês do séc. XVIII

Watteau - Festa num parque

Watteau - Um passo em falso

"Ele começou a pintar suas próprias visões de uma vida divorciada de todas as privações e trivialidades, uma vida fictícia de alegres piqueniques em parques de sonho onde nunca chove, de saraus musicais onde todas as damas são belas e todos os enamorados graciosos, uma sociedade em que todos se vestem de refulgentes sedas sem ostentação, e onde a vida dos pastores e pastoras pastoras parece ser uma sucessão de minuetos." (GOMBRICH, História da Arte, p. 358)

"... a obra de Watteau possui uma dualidade: a alegria abre espaço para a melancolia. Seus quadros sempre trazem uma felicidade almejada, mas impossível de ser alcançada no mundo real. O elemento da natureza se faz presente em todas as obras, exerce o papel de acolher os jovens, criando um mundo à parte onde a felicidade pode ser plena." (CARMINI, in: http://obviousmag.org/archives/2011/05/watteau_o_pintor_das_cenas_galantes.html)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

remédio para desenganos...

como diz a paula toller, "sempre haverá uma canção que fale tudo de mim...", um poema que traduza o que, por vezes, cala, quando já não podemos expressar em palavras o aperto no peito, a dor de um amor impossível, a saudade do que ainda nem foi... curioso, tudo isso é tão clichê, tão comum, tão humano, que certamente, a cada vez que o nó aperta somos capazes de encontrar sua expressão em infindas músicas e poemas e ainda assim, não conseguimos dizer o que nos corta a fala e o falo... eu fico com  as modas "como remédio pros meus desenganos"... 
aliás, desengano, palavra curiosa, é um engano que esqueceu de se realizar enquanto tal, que pensou que não fosse o que efetivamente é.... para desenganos não se quer remédio, melhor seria se fosse engano e assim permanecesse até se tornar não-engano, mas quando o tratamento é necessário devo dizer "que ninguém pode dizer que me viu triste a chorar [mentira! - do samba do grande amor]" afinal "saudade, meu remédio a cantar..."

domingo, 18 de agosto de 2013

"a palavra não sabe o que diz..."

adoro esse texto da viviane mosé!

realmente a gente caí de si mesmo quando percebe que nossa palavra não sabe o que diz, quando não há mais acordo entre os ouvintes....
que porra! você tem um mundo lindo e colorido esquematizado na sua fala e o outro simplesmente não entende!
esse texto me remete a uma outra discussão prático-filosófica, a do famigerado maniqueísmo entre os assim chamados campos "real" e "ideal". porque não tem nada mais humano do que vestir o concreto com o simbólico!
entre o conceito e o concreto, costumamos pensar que o conceito, a idealização é utópica e que, como tal, não pode ser vivida. que o amor, o desejo, o outro que idealizamos são apenas motivos de frustração... mas, eu discordo, se a palavra se suja com o uso, é porque um dia foi limpa. quer dizer,  é pelo ideal que a usamos para vestir o concreto que sem ela é nu, sem sentido, nada... não há concreto sem simbólico!
é como dizia o bom e velho leminski: 

essa ideia 
ninguém me tira 
matéria é mentira

e como ele, também eu "me recuso a viver num mundo sem sentido"! é só seguir a receita e lavar a palavra suja, uma hora ela reencontra seu vigor e veste, com a última moda, o concreto que a espera!

http://vimeo.com/79616935

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

prece com sotaque


"Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa." Ariano Suassuna


hoje eu conheci um santo vivo, um santo brasileiro, um santo nordestino. não foi só porque ele citava a bíblia e os sermões de padre antônio vieira, nem tampouco por sua profissão de fé escancarada em cristo. nessa que foi a missa mais emocionante de que eu participei até hoje, eu conheci um santo em luta por uma causa. eu me senti intimamente exortada, tocada, tive minha fé despertada. sua causa: o brasil, os brasileiros, nossa língua e nossa cultura. ah, ouvir esse dom quixote arcaico, montado em seu gregório, falando de preguiça, de mentira, da sonoridade do português, de amor, suas armas em sua cruzada pessoal. lutando para que paremos de dar osso a quem precisa de filé. os risos na manhã de hoje foram fáceis, gargalhadas, mas a reflexão é dura, é intensa e lenta... a tarde exige a boa preguiça. pois a aula foi espetáculo daquele em que se entra sem sair, porque não se é mais a mesma ao final...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

nem todo Milho é Pipoca...

Quando perdemos um amor, ficamos vulneráveis a nos agarrar ao primeiro semblante que possamos dele encontrar. 

Eis a tese que me ocorreu semana passada... É que na mudança de residência, nossa gatinha, a Pipoca, acabou fugindo de casa, já faz quase um mês e ainda a procuramos. Dia desses, andando pelo bairro, encontrei aquela a quem, a princípio chamamos de New Pipoca, ou Popcorn.  Sei eu porque cargas d'água sentia no meu coração - quase com certeza racional - que se tratava da nossa velha Pi... Depois de algum trabalho na readaptação (tivemos até que chamar super heróis para salvar o bichano), descobri que Popcorn era na verdade um baita "Milho", cadastrado e tudo. Quer dizer, tinha alguém a sua procura também... Deixei o "Milho" no lugar onde o encontrei com um aperto no coração confuso: baita perdido, sempre se confundindo!*

Tem sido um tempo de perdas, quando mudamos, sempre deixamos algo para trás... Talvez Pipoca esteja procurando o caminho da casa antiga, como fazemos por vezes, quando é difícil aceitar o novo endereço, por mais aconchegante que ele seja... Talvez Quintana esteja certo... 
QUEM DISSE QUE ME MUDEI?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa
                                    [em que nasceu.



* e por falar em confundido e em perdas, um pensamentozinho que ficou perdido na minha timeline por ocasião da partida do que quase/nunca/ou/pouco ficou...

às vezes o coração quer virar boca e aí a gente quase fala coisas que não pode, pede o que não deve, é que coração é bobo, não sabe nada de nada... imagina só, querer ser boca? cada órgão no seu lugar, cada um no seu lugar, na boca só o sorriso de felicidade de quem a gente ama....

segunda-feira, 20 de maio de 2013

aquela de quem se fala...

eu não sei quanto as outras pessoas, mas eu, por vezes, quase todas, tenho como critério para minhas ações e relações algo mais ou menos assim: eu gostaria de ser e agir tal como aquela pessoa de quem eu mesma falaria bem e elogiaria... vamos ver se consigo tornar isso claro, afinal tem, como sempre, tudo a ver com o outro, tema que me é tão caro!

nós costumamos admirar pessoas e seus feitos, por isso elogiamos suas posturas diante de determinados fatos, nesses casos, elas são "aquelas de quem falamos" e falamos bem... em contrapartida, tem aquelas que agem de maneira que não consideramos legal, essa são aquelas de quem falamos também, porém, falamos mal.

é por isso que o modo como julgamos o outro diz muito mais sobre nós do que sobre ele... diz sobre nossos ideais de 'ser' e 'não-ser', sobre como julgamos a nós mesmos também...

entre ser efetivamente aquela/e que fala e idealmente aquela/e de quem se fala há um espaço de angústia, de ansiedade que pode causar sofrimento... difícil lidar com isso, porém fundamental para terapia...

por muitas vezes sou acusada de cair em contradição (quem nunca?), aquela velha de se dizer uma coisa e fazer outra... assumo essa pecha, não por falta de compromisso com certas coisas que digo (aquelas pelas quais sou ré e que, portanto, devem ser importantes quando o sujeito que fala é outro...), mas por que por vezes o hiato entre eu efetivo e eu ideal é muito grande para transpor...

e quanta confusão também entre aquelxs de quem falamos e aquelxs que convivemos?! ah, isso é assunto para um outro post, um outro nó nas nossas gargantas... esse post na verdade, era só para detectar um problema constitutivo mesmo... seja lá onde isso possa nos levar (eu e minhas demais acepções de mim...)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

sobre diálogo e educação


  Ontem, quase ao final, minha aula no campus Cesfi, da Udesc, foi interrompida pelo barulho de uma manifestação de estudantes da rede estadual de ensino médio que gritavam por mais qualidade de ensino e menos alunos em sala de aula. Eu achei deveras interessante ver os estudantes deixarem a posição passiva e atuarem no processo de luta pela educação. Eles carregavam cartazes e podia notar-se um compromisso com a causa. Ao sair da sala, ouvi o seguinte comentário de alguém que não descreverei para manter o anonimato:
  -- "Na minha época, as salas de aula tinham 60 alunos e ninguém morreu por causa disso, estão todos vivos, muitos fizeram faculdade".
  Havia muita indisposição na sua fala, tentei argumentar que tenho amigos que trabalham no ensino médio e contar um pouco do testemunho que deles ouço, mas fui interrompida por outra pessoa que afirmava que os professores não tinham vontade de dar aula, que eles "matavam" o trabalho com enrolações, e etc. Por mais que eu tentasse suavemente (quem me conhece sabe que dificilmente sou incisiva nas minhas colocações) fui deixada falando sozinha. Minhas interlocutoras deixaram claro que sequer estavam dispostas a ouvir qualquer coisa que questionasse suas posturas.
  Era como se eu não estivesse falando nada, que não pudesse ser ouvida, sei lá. Sequer se despediram de mim, acho que por medo que eu insistisse nesse assunto chato com minha posição de "professorinha de filosofia que não entende nada da vida...".
  Foi tão triste, são pessoas indiretamente envolvidas com educação pública, respeito profundamente suas opiniões, embora discorde delas radicalmente. A tristeza deveu-se a falta de abertura para o debate, a pensar que boa parte das pessoas costuma sustentar opiniões e valores desta maneira irrefletida, repetindo fórmulas prontas, por ser mais fácil parece...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

... este-nord-este ...

"...tem é coisa!"

quando voltei de minha viagem ao velho mundo, caí de amores pela ilha da magia, como é normal de quem sofre de tendência aguda a paixonites. jurei meu amor a este pedacinho de terra de belezas sem par e prometi que só a deixaria se pelo nordeste do brasil... porque dizia isso eu não sei, só sei que os céus entenderam como uma prece e me providenciaram a oportunidade de flertar com esse novo affaire!
por duas vezes pude visitar a capital pernambucana em ocasiões bem especiais, a primeira no seu famoso carnaval e a segunda, recentemente, oportunidade de conhecer um cadinho do interior (a próxima visita esta agendada para a festa de São João!!)

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na estrada que nos levou de Recife até Caruaru, muitos buracos no asfalto e seca transformando a paisagem de agreste em semblante de sertão...

buracos em mim também, pude contemplar a vastidão do mundo, ah se eu me chamasse raimundo...

nestes tantos mil quilômetros que nos separam ao sul do país, muita coisa muda minha gente, muda a cor, muda os cheiros, muda o sorriso, mudam os sons...

então qualquer verde parece que vira ouro, tantos os comentários: olha que lindo, verdinho verdinho...

vovó, vira "bobó" e nos recebe com um sorriso nos olhos....

café da manhã vira almoço e a gente come de um tudo na primeira refeição do dia, prova cuscuz e fica com água na boca...

muié vira homi, que nem assim, no grande sertão veredas, guardando a beleza e fazendo a gente entender na pele aquela expressão: mulher bonita é a que luta...

seca vira fartura na mesa da casa de uma comunidade virada em família, comida gostosa que alimenta a alma...

véia vira moça e dança forró equilibrando garrafa de cerveja na cabeça...

ou será equilibrando a vida? 
já que "viver é [mesmo] negócio muito perigoso" e que "o sertão vai virar mar", neste caso navegar é viver preciso!


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terça-feira, 2 de abril de 2013

o elástico do retorno!

hoje, se eu fosse artista/performer, criaria uma performance em que um(a) bailarinx tentasse correr, mas presx por um elástico acabasse voltando para o ponto de onde partiu em intensidade proporcional a que correu... como não sou, escrevo este post para reestrear este abandonado espaço... não será assim a vida d'algumas almas mais atentas? não estaremos irremediavelmente correndo em direção aquilo de que fugimos?! penso nisso enquanto percorro os caminhos do meu paraná, percebo que embora não pense em voltar, nunca deixo de ir...

(fui, voltei, como sempre... não é muito, mas é tudo que tenho agora...)



"Vim aqui me buscar, com medo e coragem. Com toda a entrega que me era possível. Com a humildade de quem descobre se conhecer menos do que supunha e com o claro propósito de se conhecer mais. Vim aqui me buscar para varrer entulhos. Passar a limpo alguns rascunhos. Resgatar o viço do olhar. Trocar de bem com a vida. Rir com Deus, outra vez. Vim aqui me buscar para não me contentar com a mesmice. Para dizer minhas flores. Para não me surpreender ao me flagrar feliz. Para ser parecida comigo. Para me sentir em casa, de novo. Vim aqui me buscar. Aqui, no meu coração."

Ana Jácomo


para se ler ouvindo: http://www.youtube.com/watch?v=UWeOJD3oidg