terça-feira, 31 de maio de 2011

do múltiplo...

DO EXERCÍCIO DA FILOSOFIA
Como o burrico mourejando a nora,
a mente humana sempre as mesmas voltas dá...
Tolice alguma nos ocorrerá,
que não há tenha dito um sábio grego outrora
Mário Quintana 

.... acabo de assistir  "O lamento da imperatriz" (filme, vídeo-dança... ?) de Pina Bauch. Não entendi nada, mas era para entender? Não, era para sentir! Não sendo do mundo da dança e sabendo muito pouco sobre a bailarina-diretora-revolucinária, não tive referências e ao mesmo tempo fui tomada por várias sensações ligadas diretamente as imagens e por pensamentos indiretos. As sensações não encontram representantes conceituais. Mas, dentre vários, um pensamento que me invadiu - na medida em que esperava a discussão que se seguiria - versava sobre a multidão de conexões sobre a obra que se fariam, vindas dos mais diferentes "lugares" de reflexão. Quantos "sentidos" seria possível encontrar? Não dá para medir. E quanto mais eu pensava nisto, mais eu pensava nisto. Quer dizer, entrei numa viagem infinda, pensando no tamanho do mundo e no número de pessoas que nele vivem. Na infinidade de pensamentos, interpretações, reflexões, pontos de vista, visões de mundo! Apesar disto, não há nada sobre o que se queira escrever que já não tenha sido escrito antes, lembrei da minha tese que já foi escrita muito antes de eu nascer. Os pensamentos são tão múltiplos quanto velhos...

rasteira

Na capoeira a rasteira é um movimento que consiste em retirar a base em que se apoia um jogador. Geralmente, é usada como um contra-golpe a algum ataque. Quando bem executada, ela derruba. No treino da última sexta-feira levei uma que me deixou no chão. Caí mal posicionada e tive que parar de jogar.

Há dias que penso nas rasteiras da vida... No meu jogo de capoeira, não costumo levar muitas rasteiras, pois não tenho o hábito de 'atacar' como deveria e não ataco por temê-las. Com isso não desenvolvo meu jogo... É preciso estar na posição certa para se levar uma rasteira, quer dizer, deve-se tentar, ousar algo, ocupar novos espaços, por vezes "abrir a base"; ainda que com cuidado. De uma certa forma, você se "oferece" à rasteira...
Quando cruzamos fronteiras estamos expostos.

A queda de sexta não foi minha primeira rasteira nestes últimos nove meses. Algumas eu mesma me passo me exigindo demais e/ou não dando conta de minhas próprias demandas, criando subterfúgios para não ter de encará-las. Outras a vida, as pessoas, com ou sem "intenção" (no caso das pessoas claro, pois verdade seja dita, a vida não intenta nada para a minha vida...). Isto não importa tanto quanto como lido com a queda ou o titubeio. Não se trata aqui de uma apologia de auto-ajuda baseada numa fórmula para a obtenção de um ideal de sucesso. Acho que a questão tende mais para qualidade de vida, saber lidar com as quedas e não "aceitar" rasteiras intencionais. Ainda aprendo...

terça-feira, 17 de maio de 2011

sobre o tempo e/ou "minuit à paris"

Já há alguns dias que pensava em falar sobre minha relação com o tempo (ou minha temporalidade) no aproximar do meu regresso. A indisponibilidade para escrever aqui, para responder e-mails ou mandar alô aos amigos, o excesso de tarefas e desejos para fazer caber nos poucos meses que me restam, o piscar de olhos em se passou o meu séjour até então; todos estes são os fatores que me deram muito a pensar sobre o assunto.

O tema ficou ainda mais aflorado depois de assistir o novo filme do Woody Allen: Minuit à Paris (Midnight in Paris). Reencontrei a reflexão desde outra perspectiva que também me é muito cara, a saber, a da nostalgia!

O filme é ótimo, (a velha concepção do diretor da relação entre homens e mulheres parece não cansar, embora passível de críticas), uma comédia com um toque de ficção quase surrealista, mas na medida certa. Gil é um escritor americano que vem a Paris com a família da noiva. Ele se sente desajustado com o seu tempo e sonha com uma Paris dos anos 20, na qual circulavam os Fitzgeralds, Hemingway, Picasso, Dalí, T.S. Elliot, entre outros. Ocorre que ele passa a conviver com estas pessoas, em cafés e festas da época, após o badalar da meia-noite.

Trata-se de uma ocasião para questionar essa impressão comum de que o passado era melhor, de que as coisas estão sem controle, de que o tempo passa rápido demais nos dias de hoje, etc. Ademais, vi escoar na telona as imagens que agora fazem parte dos meus trajetos corriqueiros e me pus à re-pensar também sobre o tempo da cotidianidade, do hábito. 

Eu sofro de nostalgia de véspera e já sinto saudades da Paris que vou deixar, embora não seja diferente com a ilha que em breve vou reencontrar.

Nossas impressões e projeções não têm tempo. Elas vão e vêm com a intensidade e duração que lhes convém. Um doutorado não cabe em quatro anos e, no entanto uma hora é preciso por um ponto final na tese e defendê-la como pronta. A vida numa cidade não cabe num estágio PDEE, mas quantos anos seriam necessários? Não há medida...

Hoje, depois de uma ida frustrada à biblioteca, resolvi comprar um crêpe jambon-fromage, uma orangina e sentar n’algum banco do jardim de Luxembourg para estudar e esperar dar a hora da capoeira. É de onde escrevo. Está um pouco frio. Já é um início de despedida...

Piscadinhas ;)

(escrito ontem 16/05/2010)
 
voilà algumas imagens de partes do meu tempo:
o estranho tempo da morte ...


... ou da falta de tempo


 

do tempo da infância

o tempo da amizade, velhas e novas








gotan project: um show real, virtualmente assistido


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Festival Passo à Frente!

Quero escrever logo este post, ainda estou transbordando axé e quero dividí-lo aqui! Este fim de semana (28/04 à 01/05) aconteceu na cidade de Crosne, pertinho aqui de Paris, o 6º Festival Passo à Frente - CDO. As rodas já começaram na quinta-feira e só pararam no domingo à noite. Foram dias de muita troca, em vários e belos sentidos, pessoas de todas as partes do mundo unidas em torno deste talvez inexprimível movimento de libertação chamado Capoeira. Uma sementinha que nasceu no Brasil, num período triste da nossa história contada, mas que ganhou o mundo e múltiplas significações. Foram dias de "Babilônia", minha cabeça quase deu nó entre o francês, o inglês e o português, com direito algumas palavrinhas em hebraico e russo! Todo cansaço físico - a chamada "courbature" (palavra francesa para definir aquele dor em todo corpo depois de muito exercício físico) - valeu ao ponto de ter sido até bom de sentir!
Mestres Suassuna, Chicote e Acordeon
Além de confirmar minha paixão pela dança afro nos dois workshops do Mestre Pantera, partilhar da convivência de tantos outres mestres e instrutores como o sempre sorridente Boca Rica, conhecer e ouvir a sabedoria e a musicalidade do Mestre Acordeon é algo que eu não conseguiria descrever! Alguém que, ao mesmo tempo fala desde um lugar de reflexão intensa e tem a espontaneidade mais orgânica, uma sabedoria corporal eu diria. O inesperado, entretanto, foi a honra de trocar de corda na roda puxada pelo Mestre Suassuna, fundador do Cordão de Ouro, grupo em que entrei pelo mero e feliz acaso de ser perto de minha casa. Nas minhas primeiras gingas, lá em Floripa, encontrei um espaço muito acolhedor conduzido pelo Gazinho, um instrutor a quem considero meu primeiro mestre, primeiramente pela competência do jogo, mas também pela capacidade em repassá-lo!
Foram tantas impressões, eu pensava muito neste espaço, deveria ter anotado! Já é quinta-feira, eu passei a semana contagiada pela energia destes dias! Vontade de continuar treinando, de finalmente aprender a tocar berimbau e de estudar mais a história desta arte. Antes de ir ao festival eu brincava com meus amigos aqui da maison que estaria ocupada no fim de semana, por conta de um "retiro capoeiristíco". Agora, se me perguntam como foi, respondo que foi lindo, uma verdadeira renovação da fé no axé!
A empolgação foi tamanha que já estamos de passagem comprada rumo ao "Pisada do Cabaclo", evento organizado pelo CDO - Barcelona. Estou muito contente, será minha primeira viagem, com direito a escala em Madrid! Rever o mar também é um momento esperado!

Afora isto, o trabalho se encaminha bem e acho que terei  novidades para partilhar em breve! Me despeço por aqui deixando meus agradecimentos ao CDO Florianópolis, especialmente Gazinho e Miriam, aos muitos novos amigos do CDO PARIS, ao mestre Chicote, pela oportunidade de treinar no seu grupo e participar deste momento tão especial (sem falar em me obrigar a ficar na bananeira, ainda que seja apoiada, já foi um grande passo) ao Cabeção, à Tirica e aos demais amigos de lá e daqui que fazem da capoeira ainda mais querida por mim!

               Instrutor Gazinho e CM Diogo
me preparando para o meu batizado - floripa 10/2009


amigos cdo - floripa

roda aberta - cdo floripa - 02/2010 - axé em qualquer circunstância!

amigas cdo paris - 04/2011

workshop dança afro! demais!
                                                              

Mestres Suassuna e Acordeon


            




Me preparando para pegar a corda verde-amarela!


mais amigos cdo paris
no fim do festival...