sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

do outro lado do reconvexo....

Já brinquei meu Lindro Amor, oi ê... Festa que ocorre na cidade de São Francisco do Conde - BA, é um cortejo patrocinado pela festa dos santinhos guris Cosme e Damião... os Ibejis abençoados, patronos das crianças, dos erês que gostam de comer caruru, queimada. Regada com muito samba, muitas cores, muitos sorrisos, axé...


Já brinquei meu Lindro Amor, oi ê... Lindro Amor é encruzilhada, é cruzamento... Cruzamento de culturas, de lugares além e aquém mar, encruzilhada de uma vida, que dá uma grande volta, achando que ia para um lugar no mundo e chega até o Lindro Amor futuro do pretérito que já a esperava. Encruzilhada dos nossos antepassados, tradição que sustenta, com todas as contradições atuais e as infindas expectativas de futuro....

Esse escrito logo depois de viver as expectativas (há alguns meses atrás) se reencontra com a reflexão sobre 'sair de casa' que há muitooo vem se gestando em mim. Saí de casa cedo, com 21 anos (na época me achava velha), ou melhor, deixei de morar com meus pais, mas só hoje percebo que demorou muito mais para eu efetivamente sair de casa.

Da primeira vez que eu saí, fui logo ali, deixei o velho oeste paranaense, para habitar a ilha de Santa Catarina, na época foi estranhamento, isso porque a menina do interior (com erre retroflexo no final) achava que Cascavel era o mundo. Nem ela sabia o quanto precisava sair de lá. Hoje vejo que no fundo, não havia nada de novo, a exceção de uma certa liberdade praieira comum ao litoral, e da qual demorei tempos para apropriar. Antes disso, voltei ao velho oeste, desta vez para Toledo e acreditava que seria feliz se o destino lá me deixasse. Mas não era esse o caso, eu tinha que brincar meu Lindro Amor, embora ainda não soubesse disso.... Regressei a ilha, dessa vez para conhecer a capoeira e descobrir que existem mais mundos no mundo do que sonhava a vã filosofia que há anos eu já estudava, sem entender bem o porque ficava ali, morando nela. De lá fiz um salto maior, segui para "os estrangero" (graças a essa filosofia vã, que bem ou mal me abriu muitos caminhos), ainda assim não havia de fato saído de casa. Fazer um estágio doutoral com duração pré-determinada, bolsa capes, morar na Maison du Brésil em Paris, ser super bem acolhida e, por fim, saber que há um momento certo para o retorno, não é exatamente se jogar no mundo. Em todo caso, me abriu o olhar, como disse noutras oportunidades, me vejo desde então como uma modernista "portinária" que do centro europeu aprendeu a enxergar e amar o Brasil. Meus olhos nunca mais foram o mesmos e passei a não precisar mais sair do lugar para viajar. Aprendi a construir monumentos históricos com relações afetivas, a fazer selfies na memória do coração, a blogar para extravasar tantas sensações.... Voltei para ilha, amei-a, me apropriei dela, vivi todos os pedacinhos dela que pude, suas contradições e belezas!

Mas, só fui sair mesmo de casa quando carimbei meu passaporte baiano, sem data para voltar, sem saber direito o que me esperava, mas esperando e mesmo desejando a diferença. Ouvi recentemente uma conterrânea se referindo as pessoas daqui como "eles", "eles são felizes assim", "eles agem assado'.... Esse uso do pronome na terceira pessoa me incomodou, quem são eles? eu sou eles também, todos somos eles desde um ponto de vista. Há muita alteridade no eu. Esse incômodo também denuncia a sensação de sair casa finalmente, que me acompanhava com alegria e desafio. Sou elas aqui, sou bem recebida, cometo gafes, aprendo, tento me situar, sou situada. Reinvento meu corpo, minha relação. Ganhei uma identidade delxs, sou do sul e isso pode ser bem ou mal quisto, assumo essa parte de mim, de minha historicidade, de minha ancestralidade, mas há tanto espaço ainda para outras, para adoções
.
Antes de viajar, tatuei uma frase do Leminski no braço, sem me dar conta de que com isso atestava o passado que habita meu corpo como presença constante. Lá do meu Paraná com suas próprias contradições e belezas. Criei para mim o mito da encruzilhada Paraná-Bahia que me fez, com muitas intersecções e inúmeros caminhos possíveis, filosofia e capoeira, negritude e branquitude, África e Brasil.