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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

do outro lado do reconvexo....

Já brinquei meu Lindro Amor, oi ê... Festa que ocorre na cidade de São Francisco do Conde - BA, é um cortejo patrocinado pela festa dos santinhos guris Cosme e Damião... os Ibejis abençoados, patronos das crianças, dos erês que gostam de comer caruru, queimada. Regada com muito samba, muitas cores, muitos sorrisos, axé...


Já brinquei meu Lindro Amor, oi ê... Lindro Amor é encruzilhada, é cruzamento... Cruzamento de culturas, de lugares além e aquém mar, encruzilhada de uma vida, que dá uma grande volta, achando que ia para um lugar no mundo e chega até o Lindro Amor futuro do pretérito que já a esperava. Encruzilhada dos nossos antepassados, tradição que sustenta, com todas as contradições atuais e as infindas expectativas de futuro....

Esse escrito logo depois de viver as expectativas (há alguns meses atrás) se reencontra com a reflexão sobre 'sair de casa' que há muitooo vem se gestando em mim. Saí de casa cedo, com 21 anos (na época me achava velha), ou melhor, deixei de morar com meus pais, mas só hoje percebo que demorou muito mais para eu efetivamente sair de casa.

Da primeira vez que eu saí, fui logo ali, deixei o velho oeste paranaense, para habitar a ilha de Santa Catarina, na época foi estranhamento, isso porque a menina do interior (com erre retroflexo no final) achava que Cascavel era o mundo. Nem ela sabia o quanto precisava sair de lá. Hoje vejo que no fundo, não havia nada de novo, a exceção de uma certa liberdade praieira comum ao litoral, e da qual demorei tempos para apropriar. Antes disso, voltei ao velho oeste, desta vez para Toledo e acreditava que seria feliz se o destino lá me deixasse. Mas não era esse o caso, eu tinha que brincar meu Lindro Amor, embora ainda não soubesse disso.... Regressei a ilha, dessa vez para conhecer a capoeira e descobrir que existem mais mundos no mundo do que sonhava a vã filosofia que há anos eu já estudava, sem entender bem o porque ficava ali, morando nela. De lá fiz um salto maior, segui para "os estrangero" (graças a essa filosofia vã, que bem ou mal me abriu muitos caminhos), ainda assim não havia de fato saído de casa. Fazer um estágio doutoral com duração pré-determinada, bolsa capes, morar na Maison du Brésil em Paris, ser super bem acolhida e, por fim, saber que há um momento certo para o retorno, não é exatamente se jogar no mundo. Em todo caso, me abriu o olhar, como disse noutras oportunidades, me vejo desde então como uma modernista "portinária" que do centro europeu aprendeu a enxergar e amar o Brasil. Meus olhos nunca mais foram o mesmos e passei a não precisar mais sair do lugar para viajar. Aprendi a construir monumentos históricos com relações afetivas, a fazer selfies na memória do coração, a blogar para extravasar tantas sensações.... Voltei para ilha, amei-a, me apropriei dela, vivi todos os pedacinhos dela que pude, suas contradições e belezas!

Mas, só fui sair mesmo de casa quando carimbei meu passaporte baiano, sem data para voltar, sem saber direito o que me esperava, mas esperando e mesmo desejando a diferença. Ouvi recentemente uma conterrânea se referindo as pessoas daqui como "eles", "eles são felizes assim", "eles agem assado'.... Esse uso do pronome na terceira pessoa me incomodou, quem são eles? eu sou eles também, todos somos eles desde um ponto de vista. Há muita alteridade no eu. Esse incômodo também denuncia a sensação de sair casa finalmente, que me acompanhava com alegria e desafio. Sou elas aqui, sou bem recebida, cometo gafes, aprendo, tento me situar, sou situada. Reinvento meu corpo, minha relação. Ganhei uma identidade delxs, sou do sul e isso pode ser bem ou mal quisto, assumo essa parte de mim, de minha historicidade, de minha ancestralidade, mas há tanto espaço ainda para outras, para adoções
.
Antes de viajar, tatuei uma frase do Leminski no braço, sem me dar conta de que com isso atestava o passado que habita meu corpo como presença constante. Lá do meu Paraná com suas próprias contradições e belezas. Criei para mim o mito da encruzilhada Paraná-Bahia que me fez, com muitas intersecções e inúmeros caminhos possíveis, filosofia e capoeira, negritude e branquitude, África e Brasil.





domingo, 9 de março de 2014

Vazio, solidão e amor na cidade ....


... Medianeras e a fotografia de Atget. (para se ler ouvindo http://youtu.be/xiLPaW2TYHU)


Ontem revi o filme Medianeras e hoje descobri (tardiamente eu sei...) a arte de Eugène Atget. Inspirada pela minha amiga Eliana Kuster (arquiteta e apaixonada por História da Arte, pela cidade e por cinema), que vai proferir uma fala sobre o filme em Vitória, resolvi arranhar aqui uma relação que me saltou aos olhos tão logo comecei a investigar a fotografia de Atget.

Na película do argentino Gustavo Taretto dois personagens, Mariana e Martin, enfrentam de formas diferentes a solidão contemporânea petrificada na arquitetura de Buenos Aires. A reflexão mais do que atual sobre nossas edificações, sobre a relação com belo e a moradia está colocada para ambos. Mariana, arquiteta formada, reclama das Medianeras [i] que não deixam a claridade entrar em seu apartamento e a isolam ainda mais do mundo. A ausência de janelas em sua parede aponta para a ausência de janelas da alma que se vê estimulada a relações virtuais, na impossibilidade de comunicação com sujeitos reais (ou ditos reais, mas aí já é outra discussão), não porque eles não existam, mas porque a comunicação está cada dia mais truncada como os milhões de fios e postes que nas cidades nos impedem de ver o sol, apesar de ironicamente nos “aproximarem” das pessoas mais distantes. Martin sofre de fobia social e está em tratamento, também reclama de uma cidade que virou as costas para o seu rio e adere as relações virtuais que não o obrigam a enfrentar seu emparedamento, embora este o afronte o tempo todo. É um filme sobre solidão e amor, sobre a possibilidade de abrir buracos no capitalismo contemporâneo para reencontrar afetos e relações para além ou aquém dele.




Eugène Atget (1857-1927) é considerado o pai da fotografia moderna, foi um dos pioneiros no uso do recurso fotográfico para registrar paisagens deslocando os sujeitos de cena. Ele não fotografa retratos, mas o vazio das ruas parisienses quando as pessoas estão ausentes. A solidão dos objetos, das vitrines. Ele também é considerado como o primeiro surrealista e teria inspirado esse movimento.



Alguns paralelos me parecerem óbvios [não é por isto que não merecem ser analisados, muito pelo contrário] entre seus elementos e os do filme (para além de Buenos Aires ser considerada a Paris sul-americana). Martin está em tratamento de sua fobia e seu psiquiatra lhe recomenda que registre fotograficamente a cidade, a beleza, coisas que dela lhe agradem e que possam fazê-lo gostar de ali estar, momentos perdidos para o olhar desatento. Mariana trabalha como vitrinista e reflete sobre os desejos colocados na vitrine, mas não só, também sobre sua individualidade ali exposta, no anseio de ser talvez vista, através de seu trabalho. Sua dor fica no meio termo entre o coletivo e o individual, não podendo ser apreendida na reflexão. Atget fez uma série de fotos de vitrines parisienses também. Ele se recusava a retratar pessoas, mas retratou os simulacros sociais, aquilo que está ali como modelo a ser desejado, aquilo que coletivamente os indivíduos desejam ou deveriam ser e/ou ter.[ii]























A fotografia - terapia - como arte de guardar o que os indivíduos perdem na cidade, seu “habitat natural”, lugar onde ocupam e se ocupam. Atget já sabia que seria assim, os espaços públicos se tornariam, paulatinamente meios apenas de passagens, para indivíduos que não podem ocupá-los, pois já não são mais sujeitos determinados. O sujeito que Atget tirou da cena, hoje já não sabe mais como se colocar nela. Os meios são muitos, difusos, complexos, confusos e contraditórios. Estamos a um clique dos lugares e pessoas mais distantes e estamos tão longe de nós mesmos visto que nem sequer sabemos onde estamos. A cidade como um palco, um cenário de atuação... A pergunta, conectados a que? A quem? Quem conectadx? Nesse emaranhado de fios é um luxo necessário encontrar algo ou alguém, um projeto, um lugar para repousar.... Um descanso para as infindas urgências sem telos que nos são colocadas e que colamos....
















[i] (pared medianera é nome dado àquelas paredes sem janelas dos edifícios, também chamadas de paredes cegas. Geralmente, são as paredes laterais de um prédio, que, por sua proximidade com o edifício vizinho, não se pode "abrir janelas". Muitas vezes, estes espaços são usados para afixar outdoors ou algum tipo de publicidade. Na Argentina a construção de janelas em paredes medianeras é proibida por lei, ainda assim muitos descumprem a ordem, em busca de mais claridade em seus apartamentos. Naquele país as medianeras são fontes de muitas brigas judiciais)Fonte http://pt.wikipedia.org/wiki/Medianeras

[ii] Ver mais sobre http://lounge.obviousmag.org/f64_straight_writing/2012/11/as-vitrines-de-eugene-atget-a-cidade-o-fotografo-e-seus-simulacros.html       

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A felicidade é um rococó francês do séc. XVIII

Watteau - Festa num parque

Watteau - Um passo em falso

"Ele começou a pintar suas próprias visões de uma vida divorciada de todas as privações e trivialidades, uma vida fictícia de alegres piqueniques em parques de sonho onde nunca chove, de saraus musicais onde todas as damas são belas e todos os enamorados graciosos, uma sociedade em que todos se vestem de refulgentes sedas sem ostentação, e onde a vida dos pastores e pastoras pastoras parece ser uma sucessão de minuetos." (GOMBRICH, História da Arte, p. 358)

"... a obra de Watteau possui uma dualidade: a alegria abre espaço para a melancolia. Seus quadros sempre trazem uma felicidade almejada, mas impossível de ser alcançada no mundo real. O elemento da natureza se faz presente em todas as obras, exerce o papel de acolher os jovens, criando um mundo à parte onde a felicidade pode ser plena." (CARMINI, in: http://obviousmag.org/archives/2011/05/watteau_o_pintor_das_cenas_galantes.html)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

remédio para desenganos...

como diz a paula toller, "sempre haverá uma canção que fale tudo de mim...", um poema que traduza o que, por vezes, cala, quando já não podemos expressar em palavras o aperto no peito, a dor de um amor impossível, a saudade do que ainda nem foi... curioso, tudo isso é tão clichê, tão comum, tão humano, que certamente, a cada vez que o nó aperta somos capazes de encontrar sua expressão em infindas músicas e poemas e ainda assim, não conseguimos dizer o que nos corta a fala e o falo... eu fico com  as modas "como remédio pros meus desenganos"... 
aliás, desengano, palavra curiosa, é um engano que esqueceu de se realizar enquanto tal, que pensou que não fosse o que efetivamente é.... para desenganos não se quer remédio, melhor seria se fosse engano e assim permanecesse até se tornar não-engano, mas quando o tratamento é necessário devo dizer "que ninguém pode dizer que me viu triste a chorar [mentira! - do samba do grande amor]" afinal "saudade, meu remédio a cantar..."

domingo, 18 de agosto de 2013

"a palavra não sabe o que diz..."

adoro esse texto da viviane mosé!

realmente a gente caí de si mesmo quando percebe que nossa palavra não sabe o que diz, quando não há mais acordo entre os ouvintes....
que porra! você tem um mundo lindo e colorido esquematizado na sua fala e o outro simplesmente não entende!
esse texto me remete a uma outra discussão prático-filosófica, a do famigerado maniqueísmo entre os assim chamados campos "real" e "ideal". porque não tem nada mais humano do que vestir o concreto com o simbólico!
entre o conceito e o concreto, costumamos pensar que o conceito, a idealização é utópica e que, como tal, não pode ser vivida. que o amor, o desejo, o outro que idealizamos são apenas motivos de frustração... mas, eu discordo, se a palavra se suja com o uso, é porque um dia foi limpa. quer dizer,  é pelo ideal que a usamos para vestir o concreto que sem ela é nu, sem sentido, nada... não há concreto sem simbólico!
é como dizia o bom e velho leminski: 

essa ideia 
ninguém me tira 
matéria é mentira

e como ele, também eu "me recuso a viver num mundo sem sentido"! é só seguir a receita e lavar a palavra suja, uma hora ela reencontra seu vigor e veste, com a última moda, o concreto que a espera!

http://vimeo.com/79616935

segunda-feira, 29 de julho de 2013

nem todo Milho é Pipoca...

Quando perdemos um amor, ficamos vulneráveis a nos agarrar ao primeiro semblante que possamos dele encontrar. 

Eis a tese que me ocorreu semana passada... É que na mudança de residência, nossa gatinha, a Pipoca, acabou fugindo de casa, já faz quase um mês e ainda a procuramos. Dia desses, andando pelo bairro, encontrei aquela a quem, a princípio chamamos de New Pipoca, ou Popcorn.  Sei eu porque cargas d'água sentia no meu coração - quase com certeza racional - que se tratava da nossa velha Pi... Depois de algum trabalho na readaptação (tivemos até que chamar super heróis para salvar o bichano), descobri que Popcorn era na verdade um baita "Milho", cadastrado e tudo. Quer dizer, tinha alguém a sua procura também... Deixei o "Milho" no lugar onde o encontrei com um aperto no coração confuso: baita perdido, sempre se confundindo!*

Tem sido um tempo de perdas, quando mudamos, sempre deixamos algo para trás... Talvez Pipoca esteja procurando o caminho da casa antiga, como fazemos por vezes, quando é difícil aceitar o novo endereço, por mais aconchegante que ele seja... Talvez Quintana esteja certo... 
QUEM DISSE QUE ME MUDEI?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa
                                    [em que nasceu.



* e por falar em confundido e em perdas, um pensamentozinho que ficou perdido na minha timeline por ocasião da partida do que quase/nunca/ou/pouco ficou...

às vezes o coração quer virar boca e aí a gente quase fala coisas que não pode, pede o que não deve, é que coração é bobo, não sabe nada de nada... imagina só, querer ser boca? cada órgão no seu lugar, cada um no seu lugar, na boca só o sorriso de felicidade de quem a gente ama....

quinta-feira, 18 de abril de 2013

... este-nord-este ...

"...tem é coisa!"

quando voltei de minha viagem ao velho mundo, caí de amores pela ilha da magia, como é normal de quem sofre de tendência aguda a paixonites. jurei meu amor a este pedacinho de terra de belezas sem par e prometi que só a deixaria se pelo nordeste do brasil... porque dizia isso eu não sei, só sei que os céus entenderam como uma prece e me providenciaram a oportunidade de flertar com esse novo affaire!
por duas vezes pude visitar a capital pernambucana em ocasiões bem especiais, a primeira no seu famoso carnaval e a segunda, recentemente, oportunidade de conhecer um cadinho do interior (a próxima visita esta agendada para a festa de São João!!)

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na estrada que nos levou de Recife até Caruaru, muitos buracos no asfalto e seca transformando a paisagem de agreste em semblante de sertão...

buracos em mim também, pude contemplar a vastidão do mundo, ah se eu me chamasse raimundo...

nestes tantos mil quilômetros que nos separam ao sul do país, muita coisa muda minha gente, muda a cor, muda os cheiros, muda o sorriso, mudam os sons...

então qualquer verde parece que vira ouro, tantos os comentários: olha que lindo, verdinho verdinho...

vovó, vira "bobó" e nos recebe com um sorriso nos olhos....

café da manhã vira almoço e a gente come de um tudo na primeira refeição do dia, prova cuscuz e fica com água na boca...

muié vira homi, que nem assim, no grande sertão veredas, guardando a beleza e fazendo a gente entender na pele aquela expressão: mulher bonita é a que luta...

seca vira fartura na mesa da casa de uma comunidade virada em família, comida gostosa que alimenta a alma...

véia vira moça e dança forró equilibrando garrafa de cerveja na cabeça...

ou será equilibrando a vida? 
já que "viver é [mesmo] negócio muito perigoso" e que "o sertão vai virar mar", neste caso navegar é viver preciso!


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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Carlos e a garota de verdade ou sobre amor, idealismo e realidade

Kilômetros percorri para testemunhar essa união, corri demais só para vê-los, meus bens! et, voilá... as singleas palavras que ofertei aos noivos:

Os ideais e modelos costumam engessar nossas vidas, por isso sempre relutei contra o ideal do amor romântico que nos ensinam nas histórias da Disney, príncipes e princesas, etc... Eles não são experienciáveis e nos causam frustração.
Há um tempo, meu querido amigo Carlos me contou que estava namorando uma moça chamada Andréia e depois de inúmeras tentativas mal sucedidas de conhecê-la concluí que ele estava ‘variando’... Vejam bem, a tal moça, de quem eu só via os perfis em redes sociais era tão linda que parecia uma modelo de capa de revista. Eu achei então que ela só existia na imaginação fértil do Dom: pobre rapaz, estava inventando para si uma namorada perfeita!
Um dia, porém, eu pude tocá-la e pasmei: não é que existe uma mulher tão linda, meiga e simpática que um modelo pode até ser real?!! Ela é uma garota de verdade tal como o Carlos merecia...
Essa experiência me fez perceber que até mesmo o meu ceticismo com o amor é uma sorte de idealismo e que os símbolos permeiam a nossa vida como um real pulsante. Estes mesmos que os trouxeram hoje a este altar sagrado, para tornar carne nessa cerimônia ‘a sorte de um amor tranqüilo com sabor de fruta mordida...’
Feito esse rito de passagem, agora marido e mulher descerão deste mesmo altar e passarão pelo caminho de pétalas de flores pelo qual a noiva chegou. As pétalas, símbolo de tantos ideais de amor, de beleza, de romance, se tornaram agora o chão já pisado, se misturaram ao pó da estrada real que seus pés irão trilhar... Para lembrar que o amor para que seja ‘de verdade’ deve abrir mão da perfeição idealizada e se fazer encarnado no tecido do cotidiano ordinário. Isso que vocês vivem meus amados amigos, não deveria, como diz Paulinho Moska numa de suas canções, “se chamar amor” 

O amor que eu te tenho é um afeto tão novo
Que não deveria se chamar amor
De tão irreconhecível, tão desconhecido
Que não deveria se chamar amor
Poderia se chamar nuvem
Porque muda de formato a cada instante
Poderia se chamar tempo
Porque parece um filme que nunca assisti antes
Poderia se chamar labirinto
Porque sei que não conseguirei escapulir 
Poderia se chamar aurora
Pois vejo um novo dia que está por vir
Poderia se chamar abismo
Pois é certo que ele não tem fim
Poderia se chamar horizonte 
Que parece linha reta, mas sei que não é assim
Poderia se chamar primeiro beijo
Porque não lembro mais do meu passado
Poderia se chamar último adeus
Que meu antigo futuro foi abandonado
Poderia se chamar universo
Porque sei que não o conhecerei por inteiro
Poderia se chamar palavra louca
Que na verdade quer dizer aventureiro
Poderia se chamar silêncio
Porque minha dor é calada e meu desejo é mudo
E poderia simplesmente não se chamar 
Para não significar nada e dar sentido a tudo









segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sobre muitas coisas!

o velho lago municipal de Toledo...

fui e voltei, viagem a terra dos pinheiros, lugar onde nasci, cresci e d'onde parti. é estranho voltar... mas, é bom. reencontrei e me encontrei, me vi nos olhares da infância perdida e da adolescência sonhadora. tenho pensado em muitas coisas desde então, sobre a importância dos amigos, que nos mostram quem somos, quando nos esquecemos ou nos perdemos, sobre a solidão do gozo, sobre decepções e decepcionar, sobre a partilha das gargalhadas, das aflições e dos medos, sobre a dificuldade em se concluir uma tese, sobre fazer planos, sobre saudade orgânica... enfim, tudo meio assim,
... e seus novos personagens...
desordenado mesmo, pois é deste modo que as coisas se configuram nas minhas pensações atualmente.
recentemente reencontrei um poema batido sobre a amizade, mas tão eu, na minha prosmícuidade de relações sociais, que vou compartilhá-lo aqui. desnecessário dizer, que apesar de toda confusão, me sinto "blessed and locky" como na música do 10.000 maníacs e que contra o dito popular de que os amigos se podem contar com os dedos de uma mão, felizmente os meus ultrapassam os das duas, o que faz da minha personalidade um mosaico dos mais diferentes tipos que se possa imaginar! adoro esta flexibilidade, essa capacidade de adaptação, ela me faz mais forte, não mais fraca como poderia parecer, afinal me adapto as situações diversas e posso contar com os distintos apoios e sê-lo quando necessário for, assim espero...
enfim, tanto, mas não muito, é o que temos por hoje!
piscadinhas ;)

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto
e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,
eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos,
enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos !

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos
e o quanto minha vida depende de suas existências ...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade,
não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem noção de como me são necessários,
de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital,
porque eles fazem parte do mundo que eu,
tremulamente, construí,
e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.

E me envergonho, porque essa minha prece é,
em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer ...
Se alguma coisa me consome e me envelhece
é que a roda furiosa da vida
não me permite ter sempre ao meu lado,
morando comigo, andando comigo,
falando comigo, vivendo comigo,
todos os meus amigos, e, principalmente,
os que só desconfiam
- ou talvez nunca vão saber -
que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.
Vinicius de Moraes

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

sobre "lugares-comuns"

Em muitas situações da vida, nos vemos obrigados a ouvir ou dizer certas coisas que todo mundo ouve ou diz em determinadas ocasiões. São os chamados lugares-comuns. Recebi um email amigo cuidadosamente cheio deles e me pus a pensar sobre... O que é um lugar-comum? Ora, um lugar familiar, onde podemos estar confortáveis. Às vezes saímos da nossa órbita por motivos extraordinários: decepções, fim de relações, morte de alguém querido, acidentes, assaltos, frustrações. Justamente nestas horas precisamos de lugares-comuns. "Vai passar", "o tempo cura todas as feridas", "foi melhor assim", e por aí vai... Também tem aqueles: "és especial", "estamos aqui", "pode contar comigo". Nossa, estes são de suma importância. Precisamos dos lugares-comum quando não nos sentimos em casa, quando estamos estranhos a nós mesmos. Como é bom ter amigos para te dizerem os maiores clichês com toda honestidade. Importante também ter a sabedoria para usá-los quando for necessário. Sempre que alguém precisar de ajuda para voltar para casa, que eu não receie ser comum, como os meus também o são, nas horas em que mais preciso...

Por falar em clichê, ontem senti saudades de um lugar que nunca fui. Recebi esta foto da biblioteca da Sorbonne que estava em reformas no período em que estive lá...


Saudades para mim é um lugar bem comum e eu me reconheço e me encontro neste sentimento, que não tem a ver com nostalgia ou vontade de voltar ao passado, mas apenas com a compreensão de que foi bom, foi muito bom...

Piscadelas ;)

domingo, 7 de agosto de 2011

confusão de estações...

para um amigo...

... aqui é verão!? Mas, Paris não está com cara de verão, tem chovido com muita freqüência, feito um tempo "fresquinho" e nos poucos dias de calor fica bastante abafado. Por conta disso, a paisagem está confusa e vez por outra "damos de cara" com uma fotografia de outono! Assim como a cidade, também eu estou perdida. Passo pelas quatro fases da lua, por todas as estações do ano, tudo num só dia. Saudade de acolá, nostalgia daqui. Ansiedade por voltar, vontade de ficar mais um pouquinho. Carência e necessidade de estar só. Gula na falta de apetite. Insônia sonolenta... Tem vezes que "mil palavras" valem como aquele abraço mais sensível... Ah Paris que je te quitte... Acho que finalmente chegou a hora dessa música para mim!
Hoje falta extamente um mês...


 Piscadinhas ;)

sábado, 16 de julho de 2011

muito, pouco, tempo

Da cadeira da minha mesa de estudos para a cama, eis o curtíssimo trajeto que cumpro nas horas em que o corpo não aguenta mais a posição ingrata e o pensamento se confunde com as inúmeras possibilidades que tem um texto! Estou em fase de escrita, fase de angústia e ansiedade. Minha matéria prima é a confusão de hipóteses e interpretações que tenho, que li, que acumulei até aqui. Tudo parece um "excesso insuficiente". É engraçado como uma paráfrase vai se juntando a outra, se associando com concepções velhas, ganhando vida, deixando de ser o que é, rumo à autenticidade esperada. Fico insegura. É normal...

A passagem do tempo parece me massacrar. Sinto que já estou alhures, distante de Paris, e ainda há tanto que quero explorar! Mas, meu dever - que desejo levar à cabo com o melhor de mim - me impede! Talvez, mais o modo como lido com ele, que o dever em si. Isso não importa. Não posso fazer diferente agora...

Entre um paragrafo e outro, hesito, olho pela janela. Que imagem triste. E pensar que Paris tão bela está logo ali... Como no dia 14 de julho, em que se comemora a queda da Bastille. Ah, a Torre estava deslumbrante de onde a via. Antes do show de fogos, um pôr-do-sol escandaloso de tão "alaranjadamente" lindo. Não tenho fotos do show, a bateria da máquina acabou antes que ele começasse. Cômico, isto me fez pensar que minha bateria também vai acabar, se não antes, ao menos, na metade do show que é a vida nesta cidade inesgotável... Um ano é tão pouco, é muito pouco e "... muito para mim é tão pouco, e pouco é um pouco demais, viver tá me deixando louca, não sei mais do que sou capaz..." (Moska). Ao mesmo tempo, este alaranjado me lembrou do entardecer no interior do oeste paranaense: um ano é muito tempo! E já faz bem mais do que isso que saí de lá. Será que ainda vou achá-lo "tão tão" lindo? Sei que vou, sempre foi uma das coisas que eu mais gostei no "velho oeste"... Mas, será que ele vai me reconhecer? Só um detalhe desconcertante, não é para lá que volto. Primeiro, não teria como voltar de um lugar d'onde já não parto mais. Depois, a verdade é que não volto para lugar nenhum. A ilha é uma promessa para mim. Uma linda promessa, um futuro-passado que já me faz falta antes de faltar...

Acho que a confusão de uma tese, por mais despretensiosa que ela seja, se espalha pelo corpo todo!

Numa das estradas do velho oeste...
O entardecer do 14 de julho...

O cantinho da sonífera ilha que
me acolheu n'algum momento...

E por fim, uma música que re-encontrei dia desses num belo composé:

terça-feira, 17 de maio de 2011

sobre o tempo e/ou "minuit à paris"

Já há alguns dias que pensava em falar sobre minha relação com o tempo (ou minha temporalidade) no aproximar do meu regresso. A indisponibilidade para escrever aqui, para responder e-mails ou mandar alô aos amigos, o excesso de tarefas e desejos para fazer caber nos poucos meses que me restam, o piscar de olhos em se passou o meu séjour até então; todos estes são os fatores que me deram muito a pensar sobre o assunto.

O tema ficou ainda mais aflorado depois de assistir o novo filme do Woody Allen: Minuit à Paris (Midnight in Paris). Reencontrei a reflexão desde outra perspectiva que também me é muito cara, a saber, a da nostalgia!

O filme é ótimo, (a velha concepção do diretor da relação entre homens e mulheres parece não cansar, embora passível de críticas), uma comédia com um toque de ficção quase surrealista, mas na medida certa. Gil é um escritor americano que vem a Paris com a família da noiva. Ele se sente desajustado com o seu tempo e sonha com uma Paris dos anos 20, na qual circulavam os Fitzgeralds, Hemingway, Picasso, Dalí, T.S. Elliot, entre outros. Ocorre que ele passa a conviver com estas pessoas, em cafés e festas da época, após o badalar da meia-noite.

Trata-se de uma ocasião para questionar essa impressão comum de que o passado era melhor, de que as coisas estão sem controle, de que o tempo passa rápido demais nos dias de hoje, etc. Ademais, vi escoar na telona as imagens que agora fazem parte dos meus trajetos corriqueiros e me pus à re-pensar também sobre o tempo da cotidianidade, do hábito. 

Eu sofro de nostalgia de véspera e já sinto saudades da Paris que vou deixar, embora não seja diferente com a ilha que em breve vou reencontrar.

Nossas impressões e projeções não têm tempo. Elas vão e vêm com a intensidade e duração que lhes convém. Um doutorado não cabe em quatro anos e, no entanto uma hora é preciso por um ponto final na tese e defendê-la como pronta. A vida numa cidade não cabe num estágio PDEE, mas quantos anos seriam necessários? Não há medida...

Hoje, depois de uma ida frustrada à biblioteca, resolvi comprar um crêpe jambon-fromage, uma orangina e sentar n’algum banco do jardim de Luxembourg para estudar e esperar dar a hora da capoeira. É de onde escrevo. Está um pouco frio. Já é um início de despedida...

Piscadinhas ;)

(escrito ontem 16/05/2010)
 
voilà algumas imagens de partes do meu tempo:
o estranho tempo da morte ...


... ou da falta de tempo


 

do tempo da infância

o tempo da amizade, velhas e novas








gotan project: um show real, virtualmente assistido