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sábado, 16 de julho de 2011

muito, pouco, tempo

Da cadeira da minha mesa de estudos para a cama, eis o curtíssimo trajeto que cumpro nas horas em que o corpo não aguenta mais a posição ingrata e o pensamento se confunde com as inúmeras possibilidades que tem um texto! Estou em fase de escrita, fase de angústia e ansiedade. Minha matéria prima é a confusão de hipóteses e interpretações que tenho, que li, que acumulei até aqui. Tudo parece um "excesso insuficiente". É engraçado como uma paráfrase vai se juntando a outra, se associando com concepções velhas, ganhando vida, deixando de ser o que é, rumo à autenticidade esperada. Fico insegura. É normal...

A passagem do tempo parece me massacrar. Sinto que já estou alhures, distante de Paris, e ainda há tanto que quero explorar! Mas, meu dever - que desejo levar à cabo com o melhor de mim - me impede! Talvez, mais o modo como lido com ele, que o dever em si. Isso não importa. Não posso fazer diferente agora...

Entre um paragrafo e outro, hesito, olho pela janela. Que imagem triste. E pensar que Paris tão bela está logo ali... Como no dia 14 de julho, em que se comemora a queda da Bastille. Ah, a Torre estava deslumbrante de onde a via. Antes do show de fogos, um pôr-do-sol escandaloso de tão "alaranjadamente" lindo. Não tenho fotos do show, a bateria da máquina acabou antes que ele começasse. Cômico, isto me fez pensar que minha bateria também vai acabar, se não antes, ao menos, na metade do show que é a vida nesta cidade inesgotável... Um ano é tão pouco, é muito pouco e "... muito para mim é tão pouco, e pouco é um pouco demais, viver tá me deixando louca, não sei mais do que sou capaz..." (Moska). Ao mesmo tempo, este alaranjado me lembrou do entardecer no interior do oeste paranaense: um ano é muito tempo! E já faz bem mais do que isso que saí de lá. Será que ainda vou achá-lo "tão tão" lindo? Sei que vou, sempre foi uma das coisas que eu mais gostei no "velho oeste"... Mas, será que ele vai me reconhecer? Só um detalhe desconcertante, não é para lá que volto. Primeiro, não teria como voltar de um lugar d'onde já não parto mais. Depois, a verdade é que não volto para lugar nenhum. A ilha é uma promessa para mim. Uma linda promessa, um futuro-passado que já me faz falta antes de faltar...

Acho que a confusão de uma tese, por mais despretensiosa que ela seja, se espalha pelo corpo todo!

Numa das estradas do velho oeste...
O entardecer do 14 de julho...

O cantinho da sonífera ilha que
me acolheu n'algum momento...

E por fim, uma música que re-encontrei dia desses num belo composé:

sábado, 5 de março de 2011

álbum do "riso e do esquecimento"

estes últimos dias foram muito intensos! várias despedidas, dentre elas a de uma amiga muito querida, com quem iniciei minha jornada por aqui. elas marcam a chegada da metade de meu séjour! pois é, já se passaram quase seis meses! a sensação de não ter cumprido o devido e a vontade de correr desperadamente atrás do tempo perdido se misturam com o desejo de me perder por paris e em viagens tão tendadoras por estas bandas. tento me organizar, para dar um pouco de vazão a cada sentimento. ontem, retomei timidamente a jornada de trabalho, depois de alguns dias de turismo intenso. ocorre que vieram me visitar meu primo felipe e a doce bruna, sua namorada. desde domingo até quarta à noite nos deixamos levar por algumas das belezas da cidade luz. me rendi aos passeios mais turísticos possíveis e gostei, foi bom para lembrar onde estou, mas também para esquecer, por um pouco que fosse, do árduo trabalho pelo qual aqui cheguei! ademais, eles trouxeram na bagagem um cheirinho de família...
bem, deixo aqui em forma de imagens a tradução destes dias, fazendo alusão ao livro do kundera, para salientar a certas pessoinhas o quanto também elas fazem falta!
voilá:
o tradicional passeio de barco pelo sena, pena que o frio não nos deixou aproveitar mais:


presentinho de fim de passeio:


algumas das belezas do parc montsouris bem na frente de casa:


maquete do panthéon:
musée d'arts et métiers
(passeio fora do circuíto tradicional e onde os 'felipes' se esbaldaram)

autômato
notre-dame

montmartre
pequenos golpes: prática comum em pontos turísticos

chegando à Sacre Coeur

artistas de rua (adoro e merecem um post à parte, logo, logo!)

place du tertre

l'arc du triomphe 
e, finalmente, "le louvre" e algumas imagens de lá
sócrates, platão e aristóteles (bien sûr!)
e duas de suas vedetes:
vênus de milo
e a gioconda

foram dias cansativos (como quem me conhece pode imaginar), mas eu me surpreendi comigo mesma e pouco reclamei das longas caminhadas. descobrimos histórias interessantes, conversando com os meus queridos artistas de rua e com o segurança do museu responsável pela monsalisa. mas, estes são assuntos para postagens posteriores que já elaboro. agora o dever me chama e eu me porei à estudar, pois a insônia e a preocupação já voltaram a ocupar seus lugares em minha vida!

piscadelas com saudades!


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

velhas novidades

muitas emoções me atordoam* hoje:
- fazer 27 anos em Paris, sem nenhum plano de comemoração e nem ânimo para tal. eu sempre fui um tanto indiferente ao meu aniversário (claro que se ninguém lembrasse eu ficaria arrasada!), mas aqui tal sentimento me deu uma impressão de solidão, também estou me sentindo velha...;
- o resultado das eleições por aí que me deixou aliviada;
- a saudade cada vez maior do felipe e os 48 dias que ainda faltam para nos encontrarmos;
- um início de desespero pela tese que não sai e pelas leituras que não fiz ainda;
- etc...

é nesta agitação que me deu vontade de escrever novamente neste espaço. (tenho um outro amigo blogueiro por aqui e ele costuma se referir ao seu blog como uma espécie de substituto do analista, acho que ele tem razão!)

começo de trás para frente até chegar em montmartre. acho que consegui unir meus últimos passeios com este por uma idéia, a de que coisas tão velhas e tradicionais constituem as maiores novidades para mim. me sinto como uma criança muitas vezes (o que não ameniza em nada o peso da data, ao contrário...).

- ontem, consegui pegar o último de dia de programação do "village de cirque", um evento que ocorreu durante todo o mês de outubro reunindo diversos espetáculos circenses. uma amiga me avisou e fomos assistir a peça "larsen". bem, inevitavelmente a sensação que eu tinha era a de que encontraria palhaços, animais, mulheres barbadas e por aí vai, mesmo sabendo que esta é a noção restrita de circo que tive na infância pelos poucos que passaram por minha cidade. ora, eu sei que não se trata disso, mas é uma expectativa natural eu diria...

o que eu vi foi uma encenação completa, profunda, densa.
um show de expressão corporal num espaço muito
singelo, apenas algumas roupas, três artistas, alguns instrumentos e uma corda pendurada no centro da tenda. de uma sensualidade delicada, pude assistir a alguns dramas humanos e da vida em comum sendo discutidos com o corpo (que prato cheio para se pensar!). fiquei encantada, apesar do meu espanto com a nova noção de circo que se materializou finalmente para mim. pessoas de todas as idades, incluso crianças pequenas acompanhavam o desenrolar de um show que, para os nossos padrões seria 'não aconselhável' para os muito jovens.

de quebra, ao sair extasiada, descobri o lago "miromesnil" e o parque a sua volta, um lugar que por si só já é lindíssimo e ainda estava todo enfeitado com as cores do outono parisiense!





a noite, fomos à casa do méxico para participar da 'festa dos mortos', uma festa típica em que os mexicanos rendem homenagem aos seus entes queridos que já se foram, lhes constroem um altar, com fotos e oferendas e celebram com muito alegria. adorei o ritual, achei de uma sabedoria!















- sexta-feira passada, fui à pinacoteca para ver a exposição "l'Or des Incas" ("O ouro dos Incas"), também outra "milenaridade" que me impressionou bastante. não só pela primeira múmia que vi na vida!, mas também pela desenvolvimento das civilizações pré-colombianas que viveram nos andes. a riqueza de detalhes e engenhosidades dos seus instrumentos e dos seus códigos morais. a relação com a terra e com o ouro. enfim, um misto de misticismo com alto desenvolvimento. o que me chamou atenção para o fato de que o "velho mundo" só é aqui porquê o "mundo antigo" daí foi devastado pela colonização. é, precisei vir para cá para 'realizar' isto...
ao sair de lá, fomos vislumbrar a torre eiffel a noite (só tinha ido durante o dia), talvez o clichê mais adorável do mundo! (não vejo a hora de fazer estes passeios acompanhada para fechar todos os lugares-comuns mais românticos!)

- por fim o maravilho montmartre que visitei no dia 09 de outubro. tive a sorte de conhecê-lo no dia em que rolava a "fête des vendanges" (festa da colheita de uvas). estava mágico, muita gente, creio que mais do que o normal, degustação de queijos e vinhos e outras delícias, artistas pelas ruas (mais do que o normal também), a basílica de sacre coeur , o café da amélie (outro clichê que me encanta!) ... posso dizer verdadeiramente: enchantée!
























- abaixo segue um vídeo sobre a exposição da pinacoteca, fornecido pelo site oficial da mesma.

piscadelas de vovó ;), saudades!





Découvrez L'or des Incas exposé à la Pinacothèque de Paris sur Culturebox !

* nas duas acepções de atordoar de acordo com o houaiss:
1 causar ou sentir abalo ou perturbação dos sentidos por efeito de pancada, queda, bebida, estrondo etc.; aturdir(-se)
transitivo direto e pronominal
2 tornar(-se) menos sensível; adormentar(-se), insensibilizar(-se)