domingo, 18 de dezembro de 2011

".. três passos e minhas pernas já estão pensando..."

hoje fez um lindo dia de sol, quente, daqueles perfeitos para se passar na praia! Eu o passei sentada no meu escritório, derretendo de vontade de um mergulho, mas, apesar disto, feliz com o rendimento do trabalho. A corrida do fim da tarde foi como um merecido presente, durante ela pensei sobre correr!
Desde que minha querida "personal-amiga" Miriam me pôs para correr, há um tempo atrás, me encantei pela prática, às vezes até dói, depende muito do estado do corpo, mas a sensação depois é sempre de um cansaço gostoso que nos põe para dormir relaxados.
Para além dos benefícios fisiológicos, entrentanto, que podem ser explicados pela produção de não sei bem quais substâncias (endorfina, morfina, ou que quer seja...), a corrida para mim tem um "quê" a mais. Hoje me dei conta de que é uma forma peculiar de me relacionar com a cidade, com meu bairro, com o meu entorno enfim. Sair para correr é sair para lugar nenhum e, embora eu sempre faça um percurso parecido, ele é sem intenção, basta ir e voltar e sigo, curtindo a paisagem, reparando nos transeuntes, nos cachorros, nos carros... Com minha seleção de músicas que vai de Marie Tout Court à Martinalia, de Belchior à The Cure, passando por Guinsbourg, Lail Arad, Cartola e etc e tal, eu me entrego ao caminho, aprendo a gostar das peculiaridades dele, acabo me apaixonando. Meu trecho ultimamente tem sido a Beira-Mar de São José, hoje particularmente estava muito agradável, o calor do verão suavizado com a brisa do mar, as pessoas felizes, famílias fazendo as compras para o Natal! Até sentir meu joelho reclamando, estava entregue ao ritmo da marcha e me lembrei do poema do Leminski, com o qual me despeço...
 
  Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando. 
  Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

  Aonde vão dar esses passos? 
Acima, abaixo? 
 Além?  Ou acaso 
se desfazem no vento
 sem deixar nenhum traço?
         (Paulo Leminski, La vie en close)

Piscadinhas :)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

verdade e ilusão...



"Lors même que ce que je vis à présent se révélerait illusoire, la critique de mon illusion ne la rejettera pas simplement hors du monde, mais au contraire, m'en montrera la place, la relative légitimité, la véritité." (MERLEAU-PONTY, Maurice. Le visible et l'invisible. p. 90)

"Mesmo que isto que vivo no presente se revelasse ilusório, a crítica de minha ilusão não a rejeitará como simplemsente fora do mundo, mas, ao contrário, me mostrará o seu lugar, sua relatividade legítima, sua verdade."

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

capoeira, singularidade e outros ais...

às vezes, quando a tarefa parece gigante, travamos por não crer que daremos conta. É nesta fase que meu trabalho se encontra. Minha atenção não quer obedecer aos meus comandos de concentração e viajo nos pensamentos mais variados... Já pensei várias vezes em transcrevê-los por aqui, mas algo me impede. Toda vez que elaboro um tema, o perco instantaneamente... Escreverei então sobre uma coisa que tem tomado conta de minha vida, a capoeira (de novo ela)!
Ela "toma conta" no sentido de ocupar espaços, de cuidar do meu corpo, de fatigá-lo até que a tristeza e angústia, companheiras freqüentes, resolvam ceder lugar ao axé, ao sorriso inevitável...
O que afinal tem ela de tão especial? Penso nisto sempre, mas de forma mais profunda desde o evento de batizado e troca de cordas do nosso grupo, o "Berimbau tá chamando". Quando fui informada de que pegaria a corda amarela quis protestar com o Gazinho, afinal, faz pouco que peguei a última (a verde-amarela) e não me sentia preparada. Não adiantou, ele disse que se tratava apenas de um comunicado... Não entendi, mas acatei... Ontem, contudo, depois do primeiro treino de corda nova, acho que compreendi: me veio a mente o conceito de "singularidade". Tem uma música que diz assim: "em cada toque, em cada som, em cada ginga, tem um estilo de jogo". Talvez pela primeira vez na vida, me encontro num lugar onde não nos movemos em função de um "ideal", isto é, de uma norma, de uma regra que se aplique de modo universal a todos os indivíduos, desconsiderando suas características próprias, sua história de vida (o que chamamos em filosofia de  facticidade). Quanta sabedoria não? E se eu não jogo "tão bem" e com tanta destreza quanto outros da mesma graduação ou não? E daí? E se eu não sei sambar quando começa um samba de roda? Não é isto que está em pauta! Aqui, eu posso entrar na roda com a alegria, não há vergonha, não há movimento perfeito. Ou poderíamos dizer que a perfeicão de um jogo de capoeira é "deformada". Aí reside sua liberdade nos tempos de hoje em que a escravidão não é mais aquela que acorrentava os negros, mas pode ser encontrada nos padrões (estéticos e tantos outros) que determinam nossas vidas, a capoeira entretanto, não se deixa aprisionar por eles! E tem tanto mais a ser dito sobre ela, mas finalizo imaginando como transpor esta sapiência para as outras esferas da minha vida...

Piscadinhas ;)

"capoeira é uma arte, é sim, capoeira é uma luta, é sim, capoeira é uma dança, é sim, capoeira foi feita para mim..."




"...escorregar não é cair, é o jeito que o corpo dá.."



"... a capoeira de origem africana, que chegou lá na Bahia, pequenina, engatinhando, foi crescendo, engordando, se tornando brasileira.."