Ela "toma conta" no sentido de ocupar espaços, de cuidar do meu corpo, de fatigá-lo até que a tristeza e angústia, companheiras freqüentes, resolvam ceder lugar ao axé, ao sorriso inevitável...
O que afinal tem ela de tão especial? Penso nisto sempre, mas de forma mais profunda desde o evento de batizado e troca de cordas do nosso grupo, o "Berimbau tá chamando". Quando fui informada de que pegaria a corda amarela quis protestar com o Gazinho, afinal, faz pouco que peguei a última (a verde-amarela) e não me sentia preparada. Não adiantou, ele disse que se tratava apenas de um comunicado... Não entendi, mas acatei... Ontem, contudo, depois do primeiro treino de corda nova, acho que compreendi: me veio a mente o conceito de "singularidade". Tem uma música que diz assim: "em cada toque, em cada som, em cada ginga, tem um estilo de jogo". Talvez pela primeira vez na vida, me encontro num lugar onde não nos movemos em função de um "ideal", isto é, de uma norma, de uma regra que se aplique de modo universal a todos os indivíduos, desconsiderando suas características próprias, sua história de vida (o que chamamos em filosofia de facticidade). Quanta sabedoria não? E se eu não jogo "tão bem" e com tanta destreza quanto outros da mesma graduação ou não? E daí? E se eu não sei sambar quando começa um samba de roda? Não é isto que está em pauta! Aqui, eu posso entrar na roda com a alegria, não há vergonha, não há movimento perfeito. Ou poderíamos dizer que a perfeicão de um jogo de capoeira é "deformada". Aí reside sua liberdade nos tempos de hoje em que a escravidão não é mais aquela que acorrentava os negros, mas pode ser encontrada nos padrões (estéticos e tantos outros) que determinam nossas vidas, a capoeira entretanto, não se deixa aprisionar por eles! E tem tanto mais a ser dito sobre ela, mas finalizo imaginando como transpor esta sapiência para as outras esferas da minha vida...
Piscadinhas ;)
"capoeira é uma arte, é sim, capoeira é uma luta, é sim, capoeira é uma dança, é sim, capoeira foi feita para mim..."
"...escorregar não é cair, é o jeito que o corpo dá.."
"... a capoeira de origem africana, que chegou lá na Bahia, pequenina, engatinhando, foi crescendo, engordando, se tornando brasileira.."









Então vou te apresentar algumas impressões sergiais: O pessoal do Beribazu tem um assinatura automática nos posts do grupo bem assim: "Capoeira é sendo!" Não precisa de muitas explicações, do entendimento da lógica de muitos conceitos... precisa apenas estar disposto à capoeirar, porque falta um verbo melhor que determine a ação do capoeira ensimesmado ou engrupado. Uns dizem "vadiar", que se aproxima bastante; outros dizem "negaciar", que é quase um sinônimo; há ainda os que dizem "mandingar", "gingar", "soltar umas pernadas", "malandragem", "angolar"... e por aí vai.
ResponderExcluirMas o que melhor define a ação são as impressões individuais de cada participante, pois em cada consciência sempre haverá uma contextualização própria, várias definições para a mesma arte-luta-dança-jogo-brincadeira. Agora o que me surpreende de fato neste fantástico universo capoeirano é que, indiferentemente da conceitualização, da contextualização e da definição de cada um, há sempre um ponto que surpreende, que extasia, que macula (para não dizer "maculelar", hehehe), há algo que deixa todos divagarem sobre suas ações, sobre a ação do indivíduo sobre o grupo, do grupo sobre o indivíduo, algo que hipnotiza, que permite diversas sinapses simultâneas e as confusões entre elas, algo entre a sincronização das várias ações simultâneas: jogar, sorrir, bater palma, alegrar, cantar, distrair-se com a música, tocar, piscar para o amigo do outro lado da roda, sentir a rasteira que o outro levou...
Esse ponto que à todos surpreende é a descoberta de um novo universo depois de ingressar na capoeira, com o corpo e a mente se superando constantemente. E para cada um, esse novo universo é diferente do universo do outro, que faz outras descobertas, que trilha outros caminhos na própria capoeira, que um dia esses caminhos se encontram, se redescobrem e se reinventam.
Acho que o momento é um pouco isso: impressionar-se com as impressões, apreciá-las, porquê amanhã vamos todos renová-las!
Abraços sergiais!!!