Mostrando postagens com marcador viagens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viagens. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

"que importa o sentido se tudo vibra?"

Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado
Para todos os efeitos meus defeitos não são meus
Que importa o sentido se tudo vibra?
Não importa o sentido
O bramido do meu canto mudo
Comporta bemóis e sustenidos
Convoca ouvidos surdos
Ao silêncio suave
Da melodia sem conteúdo
Está escrito
Quem não quiser ceder ao canto das páginas
feche os olhos ou tape com cera os ouvidos
Alice Ruiz 


há anos que minha vida é povoada pelas reflexões raciais, esse encontro começou com a capoeira e se aprofundou com a vida na bahia... as andanças pelas ruas de maputo têm me apresentado outras facetas desse jugo colonial expandido pelo mundo... ainda apreendo... mas me ajudam a construir reflexões ontológico-poéticas sobre essas relações... essa madrugada fui acordada pela vibração de uns pensamentos soltos, justamente conduzidos por esses vividos em território moçambicano.... dei-me conta de que as relações raciais são da ordem objetificação... 

vejam, dar-se conta de algo não é descobrir uma coisa nova... todo mundo sabe disso, mas é compreendê-la desde a própria carne, de novo e mais uma vez, já que isso não é novidade. quando os colonizadores europeus escravizavam as pessoas africanas e indígenas, elas as tomavam por objeto que poderia ser negociado, vendido, usado como meio para os mais variados fins. mas se olhamos para a história da subjetividade temos duas coisas: ela é parida com as navegações que descobriram o 'novo mundo' (e, portanto, sustentada pela escravidão), ela surge então diante da descoberta de uma radical diferença e da tentativa de domesticá-la e usurpá-la. mas, se formos a fundo, ela já nasce também, nestas condições como objeto. cada vez me convenço mais de sua artificialidade. não é possível objetificar outro sujeito sem, objetificar-se também... é a relação completamente cindida com a natureza que permitiu a uma certa humanidade esse tipo de atitude. (27/11/2021)

gosto das reflexões de suely rolnik sobre o corpo vibrátil e sobre a diferença que ela faz entre sentir e perceber. nos percebemos a partir de categorias dadas, raça, gênero, sexualidade, nas quais encaixamos as pessoas tão logo as encontramos. sentir é outra coisa, sentir alguém é furar essa camada pré-concebida. sentir é vibrar. só pode acontecer quando há um encontro verdadeiro, os conceitos postos, embora sejam muitas vezes necessários, na maioria das vezes, nos impedem de sentir e também impõem certas lógicas.

aliás, enquanto escrevo isso observo a seguinte cena, uma senhora moçambicana branca, contando para seus convivas que ela pertence à "raça do futuro" pois descobriu que é "misturada" (s.i.c.), que sua avó era negra, enquanto ela fala isso, a empregada, uma senhora moçambicana negra, que ela trata 'muito carinhosamente' pelo diminutivo do nome, como 'se fosse da família', faz a limpeza em silêncio respeitoso a tudo que se passa na casa, essa empregada faz o almoço todos os dias, mas não pode comer da comida, ela traz sua própria comida, por vezes só pão, e faz um intervalo rápido para o almoço no cantinho da lavanderia, pois também não deve poder se sentar a mesa, eu que estou na casa por ter alugado um quarto, uma mulher brasileira e branca, observo a cena engolindo a seco meu chimarão, enquanto escrevo na mesa da sala, no centro de tudo... o papo sobre raças futurísticas se encerrou e me pergunto que será dessa raça do passado... dona zeninha* leva o café da manhã na varanda para dona sereta*.... vibro de nervoso, pois aqui só me resta observar a cena... não há intervenção possível para mim, a despeito do incômodo profundo... sei que dona zeninha me vê como estando no mesmo lugar de dona sereta, mas arriscamos algumas conversas, geralmente, quando estamos sós, ela me contou coisas muito íntimas de sua vida, contou por exemplo que seu primeiro marido deixou dela porque ela não podia ter filhos, mas que depois ela encontrou seu atual, com quem teve seus filhos... quando estamos só nós, às vezes, me parece se abrir uma pequena nesga de encontro, ela se ri das minhas perguntas de estrangeira e da minha recusa em deixar que ela faça certas coisas, me pergunta coisas da minha vida, do meu marido (ela estranha o fato de ser casada e estar aqui sozinha, também comenta, como outras pessoas aqui, o fato de ter essa idade e não ter filhos, coisas de branco, dizem...), da minha comida.... 

nesta casa, como na vida em geral, as pessoas não se percebem, mas se entendem muito bem nos papéis postos... é realmente muito difícil nos encontrarmos... ainda assim, somos seres vibráteis, tudo vibra... tudo é ritmo, isso nos ensina a ontologia africana também... somos força vital... essa força, num determinado ritmo, emanamos para o mundo e também do mundo recebemos... os conceitos, por sua vez, como coisas que estão no mundo, também têm sua energia e sua força e, muitas vezes, me parecem funcionar como barreiras para essa energia trocada entre nós e os demais seres, mas as barreiras nem sempre bloqueiam todo som... todo ritmo... em algum momento, forças podem transcender barricadas e, então, na intuição, finalmente nos encontramos. isso pode acontecer por um fato grave, um acidente ou qualquer outra coisa que nos obrigue a sair do lugar comum, ou pode simplesmente acontecer, por que sim, se nos abrirmos para nossas intuições... hoje (10/12/2021), pouco antes de vir aqui para tornar pública essas inquietações, enquanto eu fazia um almoço para nós, disse a dona zeninha, visto que minha partida é iminente, que sentirei saudades dela, ela disse 'eu também menina' e me perguntou quando eu voltaria, meu coração vibrou, pois foi tocado pela sinceridade do afeto, depois ela pegou a comida que fiz e foi comer no seu cantinho, ela gostou bastante, mas eu gostei ainda mais por nossa troca. perdoem-me se pareço piegas ou mesmo ingênua, certamente eu sou, sei que isso não muda nada as condições de vida postas, nem era pretensão de fazê-lo, mas esses encontros pequeninos me trazem esperança e sobretudo ganas de seguir nessas reflexões e lutar, como e com tanta gente, pela morte de certos conceitos que nos aprisionam... 

* os nomes foram alterados

sábado, 1 de fevereiro de 2014

des-re-encontros!

"a vida é a arte do encontro, pena que haja tanto desencontro pela vida" disse o poetinha, eu concordo com ele, sempre de acordo, só essa pena me incomoda.... é que do desencontro nascem muitos belos encontros, os melhores eu diria... nesse caso sou mais a florbela: "e se um dia hei de ser pó, cinza e nada, que seja minha noite uma alvorada, que saiba me perder para me encontrar"....

só ao desencontrado se pode encontrar, só o desencontrado pode se encontrar, só os desencontrados se encontram!

______________________________________________________

das coisas que aprendo quando me perco...



Sagrada escritura dos violeiros
"A defesa é natural
Cada qual para o que nasce
Cada qual com sua classe
Seus estilos de agradar
Um nasce pra trabalhar
Outro nasce para briga
Outro vive de intriga
E outro de negociar
Outro vive de enganar
O mundo só presta assim
É um bom outro ruim
E eu não tenho jeito para dar
Pra acabar de completar
Quem tem o mel, dá o mel
Quem tem o fel, dá o fel
Quem nada tem, nada dá"

quinta-feira, 18 de abril de 2013

... este-nord-este ...

"...tem é coisa!"

quando voltei de minha viagem ao velho mundo, caí de amores pela ilha da magia, como é normal de quem sofre de tendência aguda a paixonites. jurei meu amor a este pedacinho de terra de belezas sem par e prometi que só a deixaria se pelo nordeste do brasil... porque dizia isso eu não sei, só sei que os céus entenderam como uma prece e me providenciaram a oportunidade de flertar com esse novo affaire!
por duas vezes pude visitar a capital pernambucana em ocasiões bem especiais, a primeira no seu famoso carnaval e a segunda, recentemente, oportunidade de conhecer um cadinho do interior (a próxima visita esta agendada para a festa de São João!!)

_________________________________________________________________________________

na estrada que nos levou de Recife até Caruaru, muitos buracos no asfalto e seca transformando a paisagem de agreste em semblante de sertão...

buracos em mim também, pude contemplar a vastidão do mundo, ah se eu me chamasse raimundo...

nestes tantos mil quilômetros que nos separam ao sul do país, muita coisa muda minha gente, muda a cor, muda os cheiros, muda o sorriso, mudam os sons...

então qualquer verde parece que vira ouro, tantos os comentários: olha que lindo, verdinho verdinho...

vovó, vira "bobó" e nos recebe com um sorriso nos olhos....

café da manhã vira almoço e a gente come de um tudo na primeira refeição do dia, prova cuscuz e fica com água na boca...

muié vira homi, que nem assim, no grande sertão veredas, guardando a beleza e fazendo a gente entender na pele aquela expressão: mulher bonita é a que luta...

seca vira fartura na mesa da casa de uma comunidade virada em família, comida gostosa que alimenta a alma...

véia vira moça e dança forró equilibrando garrafa de cerveja na cabeça...

ou será equilibrando a vida? 
já que "viver é [mesmo] negócio muito perigoso" e que "o sertão vai virar mar", neste caso navegar é viver preciso!


_________________________________________________________________________________

 

terça-feira, 2 de abril de 2013

o elástico do retorno!

hoje, se eu fosse artista/performer, criaria uma performance em que um(a) bailarinx tentasse correr, mas presx por um elástico acabasse voltando para o ponto de onde partiu em intensidade proporcional a que correu... como não sou, escrevo este post para reestrear este abandonado espaço... não será assim a vida d'algumas almas mais atentas? não estaremos irremediavelmente correndo em direção aquilo de que fugimos?! penso nisso enquanto percorro os caminhos do meu paraná, percebo que embora não pense em voltar, nunca deixo de ir...

(fui, voltei, como sempre... não é muito, mas é tudo que tenho agora...)



"Vim aqui me buscar, com medo e coragem. Com toda a entrega que me era possível. Com a humildade de quem descobre se conhecer menos do que supunha e com o claro propósito de se conhecer mais. Vim aqui me buscar para varrer entulhos. Passar a limpo alguns rascunhos. Resgatar o viço do olhar. Trocar de bem com a vida. Rir com Deus, outra vez. Vim aqui me buscar para não me contentar com a mesmice. Para dizer minhas flores. Para não me surpreender ao me flagrar feliz. Para ser parecida comigo. Para me sentir em casa, de novo. Vim aqui me buscar. Aqui, no meu coração."

Ana Jácomo


para se ler ouvindo: http://www.youtube.com/watch?v=UWeOJD3oidg

sexta-feira, 16 de março de 2012

o outro, eu e os velhos enredos...

Há tempos escrevi um post sobre lugares-comuns... Contaminada que estou pela minha própria vida e pela minha própria tese, tenho pensado muito nos enredos comuns. Quer dizer, se existem certas frases que sempre cabem para certos momentos, isso significa que as histórias se repetem. Arrisco a dizer que há um número que pode até ser grande, mas limitado, de enredos para atuarmos na vida. Atuarmos, humpf! Me parece mesmo que é só o que nos resta, quando muito poderíamos escolher em que papel jogaríamos, mas, mesmo quanto a isso ainda tenho minhas dúvidas. Quem é que os escreve afinal? E quem é que dirige essa peça? A acadêmica que mora em mim tem uma resposta pronta: o outro! Que outro?? Aquele que não sou eu, que não é ninguém e que decidiu que as pessoas se apaixonam e sofrem e se apaixonam e sofrem de novo, que são filhos e pais, irmãos, melhores amigos, inimigos declarados, preguiçosos ou brasileiros que não desistem nunca! Aí quando vem o adolescente desabafar seus problemas com os pais, nós podemos dizer: calma, isso é uma fase, logo você vai ver que eles têm razão! É a mesma história que se repete, por isso temos uma fala pronta (a fala falada para os iniciados em Merleau-Ponty), e aí "eu" posso me justificar, afinal, embora seja de escorpião, tenho ascendente e vários astros em virgem, isso explica tudo! E nós vamos bailando entre uma definição e outra e, de vez em quanto, algum poeta, algum artista ou algum movimento fala algo nunca dito (fala falante), rompe com o idealizado, para logo se tornar idealidade também...

Eu costumava pensar que me encontrava nos meus amores e amigos, mas, vou me dando conta de que justamente me perco, o que amo neles é o que não sou eu, eles não me devolvem uma imagem-reflexo, ao contrário, eu me construo a partir disso neles que eu não possuo, e por isso nunca chego a ser um 'eu', embora, crie para mim uma história e uma definição que me dão uma ilusão egóica de ser a dirigente de minhas ações... Assim eu declaro que sou feminista, mas não muito, que gosto de guarda-chuvas, bicicletas, sexo e mpb, tenho medos bobos, não sei mergulhar sem tapar o nariz e nem o que fazer no próximo semestre!


domingo, 8 de janeiro de 2012

ano novo, vida velha!

Às vezes eu fico com raiva, raiva de ter escolhido esta vida acadêmica que me leva a lugares lindos e, ao mesmo tempo, me arranca deles e me trancafia no calor de um escritório. Enquanto pensava nisto (e não na tese) o sol brilhava na janela do meu quarto e eu podia ouvir a praia a me convidar para um banho de mar! A raiva, no entanto passa, pois não sou de guardar mágoas e nada mais me resta se não acabar logo com este trabalho que já está na "curva final", ademais, graças ao confinamento, faço algumas viagens também, fico saltitando entre um texto filosófico, vários literários, a vida alheia das redes sociais e outras coisitas internéticas.

Eis algumas belezuras que encontrei hoje e que acho dignas de serem partilhadas...

sobre filósofos e filosofia:

Le philosophe parle, mais c’est une faiblesse en lui, et une faiblesse inexplicable: il devrait se taire, coïncider en silence, et rejoindre dans l”Être une philosophie qui y est déjà faite. (Merlau-Ponty, Le visible et l'nvisible, p.164)

"O filósofo fala, mas isto é uma fraqueza nele, e uma fraqueza inexplicável: ele deveria se calar, coincidir em silêncio e encontrar no Ser uma filosofia já aí feita."

sobre o amor:

"O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quande se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epístola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um post-scriptum..." (Machado de Assis, A mão e a luva, p. 13)

sobre a impressão da passagem do tempo:

"A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuseram a linha dos cinqüena divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que já não dão à vida toda a flor dos seus primeiros anos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como no tempo deles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as coisas com os olhos da idade. Os recreios da juventude não são decerto igualmente nobres, nem igualmente frívolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento não é dela, - a pobre juventude -, é sim do tempo que lhe cai em sorte." (Machado de Assis, A mão e a luva, p. 14)

por fim, sobre tudo, nada, algumas coisas:


"- Eh ! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger ?
 - J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages !" (Baudelaire, trecho do fragmento L'étranger da obra Le spleen de Paris, p. 7)

" - Eh! que amas tú então, extraordinário estrangeiro?
  - Eu amo as nuvens... as nuvens que passam... lá... lá... as maravilhosas nuvens!"

;)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

viagem no tempo ou sobre o "marché aux puces saint-ouen"

Mesmo meu tempo estando escasso e esmagador, ontem eu o ludibriei me permitindo um passeio ao "Mercado de pulgas Saint-Ouen", que há muito planejava conhecer. Foi como voltar num passado desconhecido e imaginário. O próprio mercado já data do fim do século XIX (http://www.parispuces.com/FR/historique/) e os "puciers" nos oferecem pequenas (e grandes também) chaves para uma viagem no tempo!
Junto com meus adoráveis e extemporâneos guias, Marcelo e Michele, explorei algumas galerias do lugar que é (como tudo aqui) enorme! Cada "barraquinha" é como um pequeno museu, sem ordem categorial de classificação, do kitsch, ao clássico, ao brega... Encontramos lá objetos de épocas, pessoas de épocas! E pensar que cada colher, cada colar, cada "ovinho" de porcelana, cada coisa tem uma história, uma trajetória própria, foi vendida, foi doada, foi jogada no lixo, etc. e depois de tantos caminhos fez um furo na sua temporalidade e agora cá está, exposta e, muitas vezes, super-valorizada... Enchi meus olhos, minha imaginação, fui e voltei. De brinde, para fechar o dia, uma bière à pression (nosso bom e velho chop!) num barzinho de jazz onde músicos chegam e tocam aleatoriamente, um lugar já freqüentado por Django Reinhardt! Uau, adoro viajar longe em poucos quilômetros, foi uma bela tarde domingo!

 

 




 






 



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Brincando em Praga*

Post especial para Kelly e Fabi:
lembrei muito de vocês!

Quando, no dia 21 de junho, passeei por Paris aproveitando a fête de la musique que invadia cada cantinho da cidade, eu não podia imaginar que se tratava de um prelúdio do que seria Praga.

Por aqui eu me encantei, Paris num dia ensolarado de verão com trilha sonora é algo!

Por lá, aprendi que a capital da República Tcheca é também a capital da música, parece fête de la musique o tempo todo! Chegamos no sábado, logo após almoço, nos crendo milionários (1euro vale mais ou menos 24coroas). Tínhamos que "matar tempo" durante a tarde; não podíamos fazer nada que a Dete**, nossa companheira de viagem (que chegaria só no fim da noite), pudesse querer fazer também. Sem pressa e sem muitos destinos (afinal, já estávamos no destino), do aeroporto, desembarcamos inadvertidamente na praça Wenceslau (se bem que só percebi no outro dia). Descobrimos o Museu Nacional onde compramos ingressos para assistir um concerto que se daria lá mesmo mais tarde. No programa, Mozart, Vivaldi, Bach e Dvorak. Ficávamos sentados na escadaria enquanto os músicos executavam com seus instrumentos (incluso aí um cravo) os trechos. Foi lindo! Um ótimo começo!

A cidade é indescritível nos seus milhares de aspectos. Ela é muito diferente (eu não sou o melhor dos parâmetros, mas, voilà). Apesar de inundada de turistas, parece ter parado no tempo. A arquitetura é muito especial, faz Praga parecer viva e voluntariosa. Tudo é assimétrico (nada cartesiano como Paris), suas ruas são tortas, os prédios também. Há aglomerados de igrejas e sinagogas tão próximas, que ficamos sem entender o porquê. Em cada prédio, cada fachada, para onde se olha há inúmeros detalhes, estátuas, flores... Há um certo colorido envelhecido que me encheu olhos. Eu não cansava de repetir: que cidade linda!

Não entramos em nenhum "lugar", a não ser no complexo de sinagogas que compõe um museu da história do judaísmo (o passe incluía um passeio pelo antigo cemitério judeu). Afora isto, descobríamos coisas a cada esquina - que constavam ou não no guia que inultimente comprei (visto que perdi ;( ). Desde jardins, pontes e mais concertos, até pavões, corujas gigantes e falcões. Rodeamos o Castelo, tão complexo quanto a cidade. Nos perdemos (literalmente) na ponte Carlos IV. Acabamos com nossas coroas na metade da viagem. Comemos comida de nomes difíceis, bem gostosas e pesadas. Fomos num "pub" de 1499,  chamado U Fleku*** que fabricava a própria e deliciosa cerveja. Brincamos pela cidade, enfim. Selecionarei algumas imagens e montarei um álbum para ver se consigo expressar um pouquinho mais estas impressões que contam entre as mais lindas que tive nestes 10 meses de sanduíche! (clique aqui para ver o álbum)

E por falar nisto, faltam exatamente dois meses para o meu retorno. Muitas das pessoas que eu conheci tão logo cheguei (e que fizeram parte do que é Paris para mim) já partiram. Eu também já me sinto em despedida... Este mês quero dedicar a escrita da minha tese, que começa a querer sair da minha cabeça. Tenho dormido pouco e me sinto relativamente angustiada, mas não chega a ser um sofrimento. Mil conexões estão se fazendo para mim, só preciso conseguir canalizá-las de um modo inteligível.

À toute ;)

* o título é para aludir a um livro do Milan Kundera (vulgo MK), que eu adoro, chamado "A brincadeira", gostaría de relê-lo e quem sabe escrever sobre numa outra hora; por ora posso dizer que o autor é um dos motivos pelos quais eu ansiava conhecer a cidade,
** ótema por sinal!!
*** indicação da Luiza, (merci!) que eu resolvi carinhosamente designar como o "Le Fleurus" de Praga!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Espanha, turismo, capoeira e afins...

Conforme o esperado e o planejado a primeira viagem chegou! Semana passada, nos metemos num voo lowcoast da Ryanair rumo à Madrid, onde passamos um dia e meio antes de tomar o trem noturno que nos levaria à Barcelona para o Festival "Pisada do Caboclo" organizado pelos Mestres Pantera e Boca Rica - CDO.

Os preparativos para uma viagem incluem pesquisas virtuais sobre possíveis roteiros compatíveis com o tempo disponível. Desde esta fase, comecei a questionar o turismo. O que é conhecer uma cidade? Quando me deparei com as inúmeras possibilidades, tive vontade de desistir. O que fazemos e, justamente, o que os roteiros nos mandam fazer é simplesmente tocar numa coisa que só faz sentido sendo abraçada. Só vemos o que está exposto "pra gringo". Tudo faz parte de um jogo de consumo que me sufocou. Consumimos a arte da qual pouco sabemos. Tiramos nossas fotos de facebook e voltamos para casa satisfeitos com um chip abarrotado com o nosso "conhecimento" de um lugar!

Em Madrid, segui o roteiro bonitinho, precisava desta experiência absurda. Cheguei ao ponto de cumprir a ordem ridícula de um dos sites de tirar foto com o urso da Plaza del Sol (que, acabo de descobrir é uma ursa!). Sim, o site dizia: vá até plaza, passe pelo marco zero da Espanha e não se esqueça de se fotografar com urso que é o símbolo da cidade! Pensa que explicava o porquê? Posso dizer agora: odeio turismo!
Isso me dá um certo alívio, não me sinto mais na obrigação de  "aproveitar porque estou aqui e viajar para mil lugares" e não conhecer nenhum deles!

Afora isto, devo dizer que adorei tudo o que fiz (e também o que não fiz). Em Madrid conhecemos primeiro o museo Reina Sofia de arte contemporânea. Sim, vi o Guernica do Picasso e outras tantas coisas, com a exposição dos situacionistas, Dalí, Miró, Man Ray, etc. Tudo isso sem pressa e nem obrigação. Foi um deleite. Ao sair de lá nos encontramos com o queridissímo Bom Menino, professor de capoeira (e meu padrinho de corda nova), ele nos levou passear pela tal praça e ao Museo do Jamón, degustar o Pata-Negra, huuumm! Paramos n'outros botecos, tomamos "cerveza", falamos sobre vida e capoeira e tiramos as fotos necessárias. No dia seguinte fomos ao Museo del Prado, lindo, pleno e bastante opressor também. Eu planejava ver várias obras, em especial as telas da fase negra do Goya, mas quando cheguei na sala em que se encontravam, já estava tão cansada que não aproveitei tanto... Por outro lado, descobri outras lindezas como o "Adão e Eva" do Dürer e os "Jardins das delícias terrenas" do Boch.
Esgotados, passamos a noite no trem que, no lugar de poltronas, oferecia cabines com seis leitos apertadissímos. Ai que medo! Mas, fomos só nós dois, tranqüilos. Dormi a viagem toda!

Em Barcelona o tempo não estava nada favorável: muita chuva! Lá, seríamos hospedados pelos alunos do grupo que organiza o festival, então demoramos um pouco até sabermos para onde ir. Daí em diante o fim de semana foi de muita ginga e axé! Já na sexta-feira, a noite foi de dois workshops que indicaram o ritmo em que os próximos dias se passariam. Mais uma vez, o curso de dança afro está entre as melhores experiências. Desta feita, pude conhecer o Mestre Irineu, que não é capoeirista, mas é também um produto nacional da melhor qualidade! Atualmente professor de Dança Afro em Londres e pesquisador desta prática e de seus desdobramentos contemporâneos. Uma pessoa riquissíma e, de quebra, muito bem humorado! Além da aula de percursão com a Jabú e vários workshops com contra-mestres e mestres, tudo mais foi uma troca muita rica, convivemos com pessoas encantadoras e fizemos novos amigos...
Fomos acolhidos por Guilhermo (Pé-rachado) o que tornou nossa estadia ainda mais interessante. Ocorre que ele mora em Mataró, uma cidadezinha da região metropolitana de Barcelona. Só a ida até lá já era um passeio que costeava o litoral. Fora isto, estavamos num lugar bem mais traqüilo... Lá pudemos aproveitar o mar e desfrutar de um almoço muito simpático. Cardápio? A típica paella e um cozido de bacalhau feito para os moradores locais e não para turistas! Além dos passeios noturnos com a galera do evento, nos dias que nos sobraram, andamos! Não, não entramos na Sagrada Família e nem vários outros lugares! Eu adoraria ter entrado e se tiver oportunidade o farei, mas não rolou e aceitei! Passamos por vários pontos turísticos e optamos por nos perder no belíssimo e gratuito parque Güell, jardim com elementos arquitetônicos projetados por Antônio Gaudí! Muitas cores, muito sol, um trabalho divinamente humano. Enchantée!

Enfim, mil cousas novas e velhas sobre o mundo e sobre mim! Ótima experiência. Final de semana que vem, embarcamos rumo a Praga, teremos mais tempo do que mandam os roteiros, estou animada e sem pressa!

Com muitas saudades,

Piscadelas ;)
Museo do Jambón (fachada em obras, como muitas coisas na Espanha...)
 
A tal foto indispensável! ???
detalhes de Madrid (amei o colorido da Espanha!)
Ahhh os artitas de rua!



Me aproveitei da aula para as crianças no Museo del Prado

Praia de Mataró (mar mediterrâneo)
Caminhando por Mataró

huuumm!

Final da roda na "Associação amigos do Brasil"
Sempre perdida....
 ...rumo à Barcelona e aos encantos de Gaudí: