às vezes, quando a tarefa parece gigante, travamos por não crer que daremos conta. É nesta fase que meu trabalho se encontra. Minha atenção não quer obedecer aos meus comandos de concentração e viajo nos pensamentos mais variados... Já pensei várias vezes em transcrevê-los por aqui, mas algo me impede. Toda vez que elaboro um tema, o perco instantaneamente... Escreverei então sobre uma coisa que tem tomado conta de minha vida, a capoeira (de novo ela)!
Ela "toma conta" no sentido de ocupar espaços, de cuidar do meu corpo, de fatigá-lo até que a tristeza e angústia, companheiras freqüentes, resolvam ceder lugar ao axé, ao sorriso inevitável...
O que afinal tem ela de tão especial? Penso nisto sempre, mas de forma mais profunda desde o evento de batizado e troca de cordas do nosso grupo, o
"Berimbau tá chamando". Quando fui informada de que pegaria a corda amarela quis protestar com o Gazinho, afinal, faz pouco que peguei a última (
a verde-amarela) e não me sentia preparada. Não adiantou, ele disse que se tratava apenas de um comunicado... Não entendi, mas acatei... Ontem, contudo, depois do primeiro treino de corda nova, acho que compreendi: me veio a mente o conceito de "singularidade". Tem uma
música que diz assim: "
em cada toque, em cada som, em cada ginga, tem um estilo de jogo". Talvez pela primeira vez na vida, me encontro num lugar onde não nos movemos em função de um "ideal", isto é, de uma norma, de uma regra que se aplique de modo universal a todos os indivíduos, desconsiderando suas características próprias, sua história de vida (o que chamamos em filosofia de
facticidade). Quanta sabedoria não? E se eu não jogo "tão bem" e com tanta destreza quanto outros da mesma graduação ou não? E daí? E se eu não sei sambar quando começa um samba de roda? Não é isto que está em pauta! Aqui, eu posso entrar na roda com a alegria, não há vergonha, não há movimento perfeito. Ou poderíamos dizer que a perfeicão de um jogo de capoeira é "deformada". Aí reside sua liberdade nos tempos de hoje em que a escravidão não é mais aquela que acorrentava os negros, mas pode ser encontrada nos padrões (estéticos e tantos outros) que determinam nossas vidas, a capoeira entretanto, não se deixa aprisionar por eles! E tem tanto mais a ser dito sobre ela, mas finalizo imaginando como transpor esta sapiência para as outras esferas da minha vida...
Piscadinhas ;)
"capoeira é uma arte, é sim, capoeira é uma luta, é sim, capoeira é uma dança, é sim, capoeira foi feita para mim..."
"...escorregar não é cair, é o jeito que o corpo dá.."
"... a capoeira de origem africana, que chegou lá na Bahia, pequenina, engatinhando, foi crescendo, engordando, se tornando brasileira.."