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sexta-feira, 16 de março de 2012

o outro, eu e os velhos enredos...

Há tempos escrevi um post sobre lugares-comuns... Contaminada que estou pela minha própria vida e pela minha própria tese, tenho pensado muito nos enredos comuns. Quer dizer, se existem certas frases que sempre cabem para certos momentos, isso significa que as histórias se repetem. Arrisco a dizer que há um número que pode até ser grande, mas limitado, de enredos para atuarmos na vida. Atuarmos, humpf! Me parece mesmo que é só o que nos resta, quando muito poderíamos escolher em que papel jogaríamos, mas, mesmo quanto a isso ainda tenho minhas dúvidas. Quem é que os escreve afinal? E quem é que dirige essa peça? A acadêmica que mora em mim tem uma resposta pronta: o outro! Que outro?? Aquele que não sou eu, que não é ninguém e que decidiu que as pessoas se apaixonam e sofrem e se apaixonam e sofrem de novo, que são filhos e pais, irmãos, melhores amigos, inimigos declarados, preguiçosos ou brasileiros que não desistem nunca! Aí quando vem o adolescente desabafar seus problemas com os pais, nós podemos dizer: calma, isso é uma fase, logo você vai ver que eles têm razão! É a mesma história que se repete, por isso temos uma fala pronta (a fala falada para os iniciados em Merleau-Ponty), e aí "eu" posso me justificar, afinal, embora seja de escorpião, tenho ascendente e vários astros em virgem, isso explica tudo! E nós vamos bailando entre uma definição e outra e, de vez em quanto, algum poeta, algum artista ou algum movimento fala algo nunca dito (fala falante), rompe com o idealizado, para logo se tornar idealidade também...

Eu costumava pensar que me encontrava nos meus amores e amigos, mas, vou me dando conta de que justamente me perco, o que amo neles é o que não sou eu, eles não me devolvem uma imagem-reflexo, ao contrário, eu me construo a partir disso neles que eu não possuo, e por isso nunca chego a ser um 'eu', embora, crie para mim uma história e uma definição que me dão uma ilusão egóica de ser a dirigente de minhas ações... Assim eu declaro que sou feminista, mas não muito, que gosto de guarda-chuvas, bicicletas, sexo e mpb, tenho medos bobos, não sei mergulhar sem tapar o nariz e nem o que fazer no próximo semestre!


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

capoeira, singularidade e outros ais...

às vezes, quando a tarefa parece gigante, travamos por não crer que daremos conta. É nesta fase que meu trabalho se encontra. Minha atenção não quer obedecer aos meus comandos de concentração e viajo nos pensamentos mais variados... Já pensei várias vezes em transcrevê-los por aqui, mas algo me impede. Toda vez que elaboro um tema, o perco instantaneamente... Escreverei então sobre uma coisa que tem tomado conta de minha vida, a capoeira (de novo ela)!
Ela "toma conta" no sentido de ocupar espaços, de cuidar do meu corpo, de fatigá-lo até que a tristeza e angústia, companheiras freqüentes, resolvam ceder lugar ao axé, ao sorriso inevitável...
O que afinal tem ela de tão especial? Penso nisto sempre, mas de forma mais profunda desde o evento de batizado e troca de cordas do nosso grupo, o "Berimbau tá chamando". Quando fui informada de que pegaria a corda amarela quis protestar com o Gazinho, afinal, faz pouco que peguei a última (a verde-amarela) e não me sentia preparada. Não adiantou, ele disse que se tratava apenas de um comunicado... Não entendi, mas acatei... Ontem, contudo, depois do primeiro treino de corda nova, acho que compreendi: me veio a mente o conceito de "singularidade". Tem uma música que diz assim: "em cada toque, em cada som, em cada ginga, tem um estilo de jogo". Talvez pela primeira vez na vida, me encontro num lugar onde não nos movemos em função de um "ideal", isto é, de uma norma, de uma regra que se aplique de modo universal a todos os indivíduos, desconsiderando suas características próprias, sua história de vida (o que chamamos em filosofia de  facticidade). Quanta sabedoria não? E se eu não jogo "tão bem" e com tanta destreza quanto outros da mesma graduação ou não? E daí? E se eu não sei sambar quando começa um samba de roda? Não é isto que está em pauta! Aqui, eu posso entrar na roda com a alegria, não há vergonha, não há movimento perfeito. Ou poderíamos dizer que a perfeicão de um jogo de capoeira é "deformada". Aí reside sua liberdade nos tempos de hoje em que a escravidão não é mais aquela que acorrentava os negros, mas pode ser encontrada nos padrões (estéticos e tantos outros) que determinam nossas vidas, a capoeira entretanto, não se deixa aprisionar por eles! E tem tanto mais a ser dito sobre ela, mas finalizo imaginando como transpor esta sapiência para as outras esferas da minha vida...

Piscadinhas ;)

"capoeira é uma arte, é sim, capoeira é uma luta, é sim, capoeira é uma dança, é sim, capoeira foi feita para mim..."




"...escorregar não é cair, é o jeito que o corpo dá.."



"... a capoeira de origem africana, que chegou lá na Bahia, pequenina, engatinhando, foi crescendo, engordando, se tornando brasileira.."