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domingo, 18 de agosto de 2013

"a palavra não sabe o que diz..."

adoro esse texto da viviane mosé!

realmente a gente caí de si mesmo quando percebe que nossa palavra não sabe o que diz, quando não há mais acordo entre os ouvintes....
que porra! você tem um mundo lindo e colorido esquematizado na sua fala e o outro simplesmente não entende!
esse texto me remete a uma outra discussão prático-filosófica, a do famigerado maniqueísmo entre os assim chamados campos "real" e "ideal". porque não tem nada mais humano do que vestir o concreto com o simbólico!
entre o conceito e o concreto, costumamos pensar que o conceito, a idealização é utópica e que, como tal, não pode ser vivida. que o amor, o desejo, o outro que idealizamos são apenas motivos de frustração... mas, eu discordo, se a palavra se suja com o uso, é porque um dia foi limpa. quer dizer,  é pelo ideal que a usamos para vestir o concreto que sem ela é nu, sem sentido, nada... não há concreto sem simbólico!
é como dizia o bom e velho leminski: 

essa ideia 
ninguém me tira 
matéria é mentira

e como ele, também eu "me recuso a viver num mundo sem sentido"! é só seguir a receita e lavar a palavra suja, uma hora ela reencontra seu vigor e veste, com a última moda, o concreto que a espera!

http://vimeo.com/79616935

segunda-feira, 20 de maio de 2013

aquela de quem se fala...

eu não sei quanto as outras pessoas, mas eu, por vezes, quase todas, tenho como critério para minhas ações e relações algo mais ou menos assim: eu gostaria de ser e agir tal como aquela pessoa de quem eu mesma falaria bem e elogiaria... vamos ver se consigo tornar isso claro, afinal tem, como sempre, tudo a ver com o outro, tema que me é tão caro!

nós costumamos admirar pessoas e seus feitos, por isso elogiamos suas posturas diante de determinados fatos, nesses casos, elas são "aquelas de quem falamos" e falamos bem... em contrapartida, tem aquelas que agem de maneira que não consideramos legal, essa são aquelas de quem falamos também, porém, falamos mal.

é por isso que o modo como julgamos o outro diz muito mais sobre nós do que sobre ele... diz sobre nossos ideais de 'ser' e 'não-ser', sobre como julgamos a nós mesmos também...

entre ser efetivamente aquela/e que fala e idealmente aquela/e de quem se fala há um espaço de angústia, de ansiedade que pode causar sofrimento... difícil lidar com isso, porém fundamental para terapia...

por muitas vezes sou acusada de cair em contradição (quem nunca?), aquela velha de se dizer uma coisa e fazer outra... assumo essa pecha, não por falta de compromisso com certas coisas que digo (aquelas pelas quais sou ré e que, portanto, devem ser importantes quando o sujeito que fala é outro...), mas por que por vezes o hiato entre eu efetivo e eu ideal é muito grande para transpor...

e quanta confusão também entre aquelxs de quem falamos e aquelxs que convivemos?! ah, isso é assunto para um outro post, um outro nó nas nossas gargantas... esse post na verdade, era só para detectar um problema constitutivo mesmo... seja lá onde isso possa nos levar (eu e minhas demais acepções de mim...)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

ainda sobre falar

Falar é um ato infindo, um horizonte aberto, um buraco. Falamos, falamos, falamos, temos a impressão imediata de que tudo foi dito, certo alívio... Tudo passageiro. Logo vem aquela sensação de que ficou algo para trás e começamos a pensar no que deveríamos ter falado, no que deveríamos ter calado... No fim, tudo por conta da ilusão de que se pode esgotar um sentimento, um pensamento, um desejo... Ora, mas se a fala é a manifestação desse desejo, não como ferramenta, mas como próprio ato de desejar, sentir e pensar, se ela é o tocar do nosso corpo afetivo, ela não poderia mesmo dar conta de si (quando se toca, o corpo se apaga enquanto tocante e não pode tocar e visualizar plenamente a si mesmo) e é apenas quando o sentir, o desejar e o pensar se calam que podemos, ao nos lembrar do vivido, falar sobre ele como quem se afastou um pouco, pois será então, um outro pensamento, um outro sentimento, um outro desejo que se manifesta... Nos momentos de confusão de desejos, pensamentos e sentimentos, não se fala com sentido, ou se fala com excesso de sentido, tanto que não nos fazemos compreender e sequer nos compreendemos. Não existe isso de 'organizar ideias', em momentos de turbilhão, é preciso simplesmente deixar que elas se organizem por conta própria, esperar... Falar na terapia, falar para os ouvidos amigos, falar, falar, até que a letra mude e traga um pouco de paz, por um período que antecederá novas confusões...
 

Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu...
Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu...
Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu...
Oh! Oh!...Oh! Oh!
Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Um capricho do sol
No jardim do céu...
Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu...
Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

falar é despir-se ou vestir-se

Habitualmente, costumamos pensar na linguagem como uma forma de comunicação de nossos pensamentos. Não quero aqui entrar nas complexas teorias filosóficas a este respeito, são muitas e eu desconheço grande parte da discussão. Quero me ater apenas nessa compreensão e n'algumas derivações vinculadas a mim (psicologismo barato) e ao que tenho estudado ultimamente. Partindo-se desse pressuposto de que a fala indica algo que não é ela, tal como o pensamento do falante ou algo no mundo que ele quer descrever ou apontar, ela é tomada como uma ferramenta e me valho das palavras e das construções que elas permitem para interagir com os outros. A linguagem é, porém, cheia de possibilidades, de equivocidades e, frequentemente, nos enganamos sobre o que "se quis dizer". Esses fatos podem implicar duas coisas: ou bem a ferramenta é inadequada ou foi inadequadamente utilizada, nesse caso, tenho sempre clareza a respeito do que 'penso' e do 'quero dizer', ou bem a cisão entre "pensamento", "intenção" e linguagem não é tão nítida assim, caso em que eu não seria dotada de clareza tão translúcida acerca dos meus pensamentos e intenções.

Por vários motivos que ocupariam muito espaço aqui (que não são tão claros assim) e que se baseiam bastante nas lições merleau-pontianas, gosto da segunda hipótese. Gosto de pensar na fala como não como um instrumento, mas como um comportamento, como uma extensão dos meus gestos e do meu corpo. Quer dizer, falar é como tocar, o tato não é um instrumento da mão, é a própria mão agindo. A fala não é um instrumento do pensamento, é o pensamento ocorrendo (seja no silêncio das minhas divagações, seja no barulho de nossas conversas). Para mim, falar é como tirar a roupa ou colocá-la na frente do outro que quando me fala, me despe ou me veste (e se despe ou se veste). Isso depende da personalidade (ai, que medo) dos participantes da conversa, acho eu... Ou sei lá do que depende, mas não acredito que seja uma decisão que nos cabe...

Quanto a mim, eu falo, falo demais, falo muito, falo de mim, não consigo deixar as palavras guardadas. Logo, estou sempre exposta e assim, também sou despida. não demoro muito a ser desvendada. O que será que quero esconder com tanta exposição? (huum, pergunta para análise futura...) Eu ouço bastante também, sou uma voyeureuse do corpo falado alheio. Certas expressões me lembram certas pessoas que as usam, reparo no modo como são empregadas, nos gestos que costumam acompanhar... Tem gente, entretanto, que não fala em voz alta, que não se expõe tanto, sabe aquelas pessoas que sofrem, amam, odeiam e simplesmente não se deixam apreender no flagra? Algumas são consideradas dissimuladas, premeditam o streaptease para o momento mais oportuno, tiram a roupa, mas nem todas as peças, outras são apenas tímidas ou têm mais dificuldade em se compreender ou se expor...

Há muita sensualidade em falar, estamos sempre gozando e sofrendo, solitariamente ou em multidões, nos excitando, magoando, confortando, indignando. Comendo enfim, porque parece que temos uma fome do mundo e do outro que nosso corpo precisa saciar com os alimentos que o mantém orgânica e simbolicamente.

Eu falo porque tenho fome e calor!


sexta-feira, 16 de março de 2012

o outro, eu e os velhos enredos...

Há tempos escrevi um post sobre lugares-comuns... Contaminada que estou pela minha própria vida e pela minha própria tese, tenho pensado muito nos enredos comuns. Quer dizer, se existem certas frases que sempre cabem para certos momentos, isso significa que as histórias se repetem. Arrisco a dizer que há um número que pode até ser grande, mas limitado, de enredos para atuarmos na vida. Atuarmos, humpf! Me parece mesmo que é só o que nos resta, quando muito poderíamos escolher em que papel jogaríamos, mas, mesmo quanto a isso ainda tenho minhas dúvidas. Quem é que os escreve afinal? E quem é que dirige essa peça? A acadêmica que mora em mim tem uma resposta pronta: o outro! Que outro?? Aquele que não sou eu, que não é ninguém e que decidiu que as pessoas se apaixonam e sofrem e se apaixonam e sofrem de novo, que são filhos e pais, irmãos, melhores amigos, inimigos declarados, preguiçosos ou brasileiros que não desistem nunca! Aí quando vem o adolescente desabafar seus problemas com os pais, nós podemos dizer: calma, isso é uma fase, logo você vai ver que eles têm razão! É a mesma história que se repete, por isso temos uma fala pronta (a fala falada para os iniciados em Merleau-Ponty), e aí "eu" posso me justificar, afinal, embora seja de escorpião, tenho ascendente e vários astros em virgem, isso explica tudo! E nós vamos bailando entre uma definição e outra e, de vez em quanto, algum poeta, algum artista ou algum movimento fala algo nunca dito (fala falante), rompe com o idealizado, para logo se tornar idealidade também...

Eu costumava pensar que me encontrava nos meus amores e amigos, mas, vou me dando conta de que justamente me perco, o que amo neles é o que não sou eu, eles não me devolvem uma imagem-reflexo, ao contrário, eu me construo a partir disso neles que eu não possuo, e por isso nunca chego a ser um 'eu', embora, crie para mim uma história e uma definição que me dão uma ilusão egóica de ser a dirigente de minhas ações... Assim eu declaro que sou feminista, mas não muito, que gosto de guarda-chuvas, bicicletas, sexo e mpb, tenho medos bobos, não sei mergulhar sem tapar o nariz e nem o que fazer no próximo semestre!