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domingo, 9 de março de 2014

Vazio, solidão e amor na cidade ....


... Medianeras e a fotografia de Atget. (para se ler ouvindo http://youtu.be/xiLPaW2TYHU)


Ontem revi o filme Medianeras e hoje descobri (tardiamente eu sei...) a arte de Eugène Atget. Inspirada pela minha amiga Eliana Kuster (arquiteta e apaixonada por História da Arte, pela cidade e por cinema), que vai proferir uma fala sobre o filme em Vitória, resolvi arranhar aqui uma relação que me saltou aos olhos tão logo comecei a investigar a fotografia de Atget.

Na película do argentino Gustavo Taretto dois personagens, Mariana e Martin, enfrentam de formas diferentes a solidão contemporânea petrificada na arquitetura de Buenos Aires. A reflexão mais do que atual sobre nossas edificações, sobre a relação com belo e a moradia está colocada para ambos. Mariana, arquiteta formada, reclama das Medianeras [i] que não deixam a claridade entrar em seu apartamento e a isolam ainda mais do mundo. A ausência de janelas em sua parede aponta para a ausência de janelas da alma que se vê estimulada a relações virtuais, na impossibilidade de comunicação com sujeitos reais (ou ditos reais, mas aí já é outra discussão), não porque eles não existam, mas porque a comunicação está cada dia mais truncada como os milhões de fios e postes que nas cidades nos impedem de ver o sol, apesar de ironicamente nos “aproximarem” das pessoas mais distantes. Martin sofre de fobia social e está em tratamento, também reclama de uma cidade que virou as costas para o seu rio e adere as relações virtuais que não o obrigam a enfrentar seu emparedamento, embora este o afronte o tempo todo. É um filme sobre solidão e amor, sobre a possibilidade de abrir buracos no capitalismo contemporâneo para reencontrar afetos e relações para além ou aquém dele.




Eugène Atget (1857-1927) é considerado o pai da fotografia moderna, foi um dos pioneiros no uso do recurso fotográfico para registrar paisagens deslocando os sujeitos de cena. Ele não fotografa retratos, mas o vazio das ruas parisienses quando as pessoas estão ausentes. A solidão dos objetos, das vitrines. Ele também é considerado como o primeiro surrealista e teria inspirado esse movimento.



Alguns paralelos me parecerem óbvios [não é por isto que não merecem ser analisados, muito pelo contrário] entre seus elementos e os do filme (para além de Buenos Aires ser considerada a Paris sul-americana). Martin está em tratamento de sua fobia e seu psiquiatra lhe recomenda que registre fotograficamente a cidade, a beleza, coisas que dela lhe agradem e que possam fazê-lo gostar de ali estar, momentos perdidos para o olhar desatento. Mariana trabalha como vitrinista e reflete sobre os desejos colocados na vitrine, mas não só, também sobre sua individualidade ali exposta, no anseio de ser talvez vista, através de seu trabalho. Sua dor fica no meio termo entre o coletivo e o individual, não podendo ser apreendida na reflexão. Atget fez uma série de fotos de vitrines parisienses também. Ele se recusava a retratar pessoas, mas retratou os simulacros sociais, aquilo que está ali como modelo a ser desejado, aquilo que coletivamente os indivíduos desejam ou deveriam ser e/ou ter.[ii]























A fotografia - terapia - como arte de guardar o que os indivíduos perdem na cidade, seu “habitat natural”, lugar onde ocupam e se ocupam. Atget já sabia que seria assim, os espaços públicos se tornariam, paulatinamente meios apenas de passagens, para indivíduos que não podem ocupá-los, pois já não são mais sujeitos determinados. O sujeito que Atget tirou da cena, hoje já não sabe mais como se colocar nela. Os meios são muitos, difusos, complexos, confusos e contraditórios. Estamos a um clique dos lugares e pessoas mais distantes e estamos tão longe de nós mesmos visto que nem sequer sabemos onde estamos. A cidade como um palco, um cenário de atuação... A pergunta, conectados a que? A quem? Quem conectadx? Nesse emaranhado de fios é um luxo necessário encontrar algo ou alguém, um projeto, um lugar para repousar.... Um descanso para as infindas urgências sem telos que nos são colocadas e que colamos....
















[i] (pared medianera é nome dado àquelas paredes sem janelas dos edifícios, também chamadas de paredes cegas. Geralmente, são as paredes laterais de um prédio, que, por sua proximidade com o edifício vizinho, não se pode "abrir janelas". Muitas vezes, estes espaços são usados para afixar outdoors ou algum tipo de publicidade. Na Argentina a construção de janelas em paredes medianeras é proibida por lei, ainda assim muitos descumprem a ordem, em busca de mais claridade em seus apartamentos. Naquele país as medianeras são fontes de muitas brigas judiciais)Fonte http://pt.wikipedia.org/wiki/Medianeras

[ii] Ver mais sobre http://lounge.obviousmag.org/f64_straight_writing/2012/11/as-vitrines-de-eugene-atget-a-cidade-o-fotografo-e-seus-simulacros.html       

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A felicidade é um rococó francês do séc. XVIII

Watteau - Festa num parque

Watteau - Um passo em falso

"Ele começou a pintar suas próprias visões de uma vida divorciada de todas as privações e trivialidades, uma vida fictícia de alegres piqueniques em parques de sonho onde nunca chove, de saraus musicais onde todas as damas são belas e todos os enamorados graciosos, uma sociedade em que todos se vestem de refulgentes sedas sem ostentação, e onde a vida dos pastores e pastoras pastoras parece ser uma sucessão de minuetos." (GOMBRICH, História da Arte, p. 358)

"... a obra de Watteau possui uma dualidade: a alegria abre espaço para a melancolia. Seus quadros sempre trazem uma felicidade almejada, mas impossível de ser alcançada no mundo real. O elemento da natureza se faz presente em todas as obras, exerce o papel de acolher os jovens, criando um mundo à parte onde a felicidade pode ser plena." (CARMINI, in: http://obviousmag.org/archives/2011/05/watteau_o_pintor_das_cenas_galantes.html)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

verdadeira: Maratona Cultural!

Fim de semana que vem vai rolar aqui na ilha a Maratona Cultural, a programação está super, mega, blaster intensa,(clique aqui para ver) tem muita coisa legal e eu estou doidinha sem saber para onde ir! Acho que no fim, dada a iminência da minha qualificação de doutorado (segunda-feira próxima) e outras demanas, vou ter que ficar em casa com meus filósofos, aff! Mas, quem estiver disponível deve aproveitar!


Florianópolis respira cultura durante 3 dias.

Florianópolis será o palco para 500 artistas durante os dias 25, 26 e 27 de novembro com a chegada da Maratona Cultural. Um evento inédito que valoriza a cultura e os artistas locais, além da participação de convidados de todo o País. Com muitas plataformas de manifestação artística, a Maratona Cultural reúne música, dança, circo, teatro, artes plásticas, cinema, mapping, literatura e muito mais. Serão 3 dias de programação para todas as tribos, idades, gostos e classes sociais, distribuída em diversos pontos da Ilha da Magia.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Espanha, turismo, capoeira e afins...

Conforme o esperado e o planejado a primeira viagem chegou! Semana passada, nos metemos num voo lowcoast da Ryanair rumo à Madrid, onde passamos um dia e meio antes de tomar o trem noturno que nos levaria à Barcelona para o Festival "Pisada do Caboclo" organizado pelos Mestres Pantera e Boca Rica - CDO.

Os preparativos para uma viagem incluem pesquisas virtuais sobre possíveis roteiros compatíveis com o tempo disponível. Desde esta fase, comecei a questionar o turismo. O que é conhecer uma cidade? Quando me deparei com as inúmeras possibilidades, tive vontade de desistir. O que fazemos e, justamente, o que os roteiros nos mandam fazer é simplesmente tocar numa coisa que só faz sentido sendo abraçada. Só vemos o que está exposto "pra gringo". Tudo faz parte de um jogo de consumo que me sufocou. Consumimos a arte da qual pouco sabemos. Tiramos nossas fotos de facebook e voltamos para casa satisfeitos com um chip abarrotado com o nosso "conhecimento" de um lugar!

Em Madrid, segui o roteiro bonitinho, precisava desta experiência absurda. Cheguei ao ponto de cumprir a ordem ridícula de um dos sites de tirar foto com o urso da Plaza del Sol (que, acabo de descobrir é uma ursa!). Sim, o site dizia: vá até plaza, passe pelo marco zero da Espanha e não se esqueça de se fotografar com urso que é o símbolo da cidade! Pensa que explicava o porquê? Posso dizer agora: odeio turismo!
Isso me dá um certo alívio, não me sinto mais na obrigação de  "aproveitar porque estou aqui e viajar para mil lugares" e não conhecer nenhum deles!

Afora isto, devo dizer que adorei tudo o que fiz (e também o que não fiz). Em Madrid conhecemos primeiro o museo Reina Sofia de arte contemporânea. Sim, vi o Guernica do Picasso e outras tantas coisas, com a exposição dos situacionistas, Dalí, Miró, Man Ray, etc. Tudo isso sem pressa e nem obrigação. Foi um deleite. Ao sair de lá nos encontramos com o queridissímo Bom Menino, professor de capoeira (e meu padrinho de corda nova), ele nos levou passear pela tal praça e ao Museo do Jamón, degustar o Pata-Negra, huuumm! Paramos n'outros botecos, tomamos "cerveza", falamos sobre vida e capoeira e tiramos as fotos necessárias. No dia seguinte fomos ao Museo del Prado, lindo, pleno e bastante opressor também. Eu planejava ver várias obras, em especial as telas da fase negra do Goya, mas quando cheguei na sala em que se encontravam, já estava tão cansada que não aproveitei tanto... Por outro lado, descobri outras lindezas como o "Adão e Eva" do Dürer e os "Jardins das delícias terrenas" do Boch.
Esgotados, passamos a noite no trem que, no lugar de poltronas, oferecia cabines com seis leitos apertadissímos. Ai que medo! Mas, fomos só nós dois, tranqüilos. Dormi a viagem toda!

Em Barcelona o tempo não estava nada favorável: muita chuva! Lá, seríamos hospedados pelos alunos do grupo que organiza o festival, então demoramos um pouco até sabermos para onde ir. Daí em diante o fim de semana foi de muita ginga e axé! Já na sexta-feira, a noite foi de dois workshops que indicaram o ritmo em que os próximos dias se passariam. Mais uma vez, o curso de dança afro está entre as melhores experiências. Desta feita, pude conhecer o Mestre Irineu, que não é capoeirista, mas é também um produto nacional da melhor qualidade! Atualmente professor de Dança Afro em Londres e pesquisador desta prática e de seus desdobramentos contemporâneos. Uma pessoa riquissíma e, de quebra, muito bem humorado! Além da aula de percursão com a Jabú e vários workshops com contra-mestres e mestres, tudo mais foi uma troca muita rica, convivemos com pessoas encantadoras e fizemos novos amigos...
Fomos acolhidos por Guilhermo (Pé-rachado) o que tornou nossa estadia ainda mais interessante. Ocorre que ele mora em Mataró, uma cidadezinha da região metropolitana de Barcelona. Só a ida até lá já era um passeio que costeava o litoral. Fora isto, estavamos num lugar bem mais traqüilo... Lá pudemos aproveitar o mar e desfrutar de um almoço muito simpático. Cardápio? A típica paella e um cozido de bacalhau feito para os moradores locais e não para turistas! Além dos passeios noturnos com a galera do evento, nos dias que nos sobraram, andamos! Não, não entramos na Sagrada Família e nem vários outros lugares! Eu adoraria ter entrado e se tiver oportunidade o farei, mas não rolou e aceitei! Passamos por vários pontos turísticos e optamos por nos perder no belíssimo e gratuito parque Güell, jardim com elementos arquitetônicos projetados por Antônio Gaudí! Muitas cores, muito sol, um trabalho divinamente humano. Enchantée!

Enfim, mil cousas novas e velhas sobre o mundo e sobre mim! Ótima experiência. Final de semana que vem, embarcamos rumo a Praga, teremos mais tempo do que mandam os roteiros, estou animada e sem pressa!

Com muitas saudades,

Piscadelas ;)
Museo do Jambón (fachada em obras, como muitas coisas na Espanha...)
 
A tal foto indispensável! ???
detalhes de Madrid (amei o colorido da Espanha!)
Ahhh os artitas de rua!



Me aproveitei da aula para as crianças no Museo del Prado

Praia de Mataró (mar mediterrâneo)
Caminhando por Mataró

huuumm!

Final da roda na "Associação amigos do Brasil"
Sempre perdida....
 ...rumo à Barcelona e aos encantos de Gaudí:






  


 

sábado, 5 de março de 2011

álbum do "riso e do esquecimento"

estes últimos dias foram muito intensos! várias despedidas, dentre elas a de uma amiga muito querida, com quem iniciei minha jornada por aqui. elas marcam a chegada da metade de meu séjour! pois é, já se passaram quase seis meses! a sensação de não ter cumprido o devido e a vontade de correr desperadamente atrás do tempo perdido se misturam com o desejo de me perder por paris e em viagens tão tendadoras por estas bandas. tento me organizar, para dar um pouco de vazão a cada sentimento. ontem, retomei timidamente a jornada de trabalho, depois de alguns dias de turismo intenso. ocorre que vieram me visitar meu primo felipe e a doce bruna, sua namorada. desde domingo até quarta à noite nos deixamos levar por algumas das belezas da cidade luz. me rendi aos passeios mais turísticos possíveis e gostei, foi bom para lembrar onde estou, mas também para esquecer, por um pouco que fosse, do árduo trabalho pelo qual aqui cheguei! ademais, eles trouxeram na bagagem um cheirinho de família...
bem, deixo aqui em forma de imagens a tradução destes dias, fazendo alusão ao livro do kundera, para salientar a certas pessoinhas o quanto também elas fazem falta!
voilá:
o tradicional passeio de barco pelo sena, pena que o frio não nos deixou aproveitar mais:


presentinho de fim de passeio:


algumas das belezas do parc montsouris bem na frente de casa:


maquete do panthéon:
musée d'arts et métiers
(passeio fora do circuíto tradicional e onde os 'felipes' se esbaldaram)

autômato
notre-dame

montmartre
pequenos golpes: prática comum em pontos turísticos

chegando à Sacre Coeur

artistas de rua (adoro e merecem um post à parte, logo, logo!)

place du tertre

l'arc du triomphe 
e, finalmente, "le louvre" e algumas imagens de lá
sócrates, platão e aristóteles (bien sûr!)
e duas de suas vedetes:
vênus de milo
e a gioconda

foram dias cansativos (como quem me conhece pode imaginar), mas eu me surpreendi comigo mesma e pouco reclamei das longas caminhadas. descobrimos histórias interessantes, conversando com os meus queridos artistas de rua e com o segurança do museu responsável pela monsalisa. mas, estes são assuntos para postagens posteriores que já elaboro. agora o dever me chama e eu me porei à estudar, pois a insônia e a preocupação já voltaram a ocupar seus lugares em minha vida!

piscadelas com saudades!