sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

"que importa o sentido se tudo vibra?"

Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado
Para todos os efeitos meus defeitos não são meus
Que importa o sentido se tudo vibra?
Não importa o sentido
O bramido do meu canto mudo
Comporta bemóis e sustenidos
Convoca ouvidos surdos
Ao silêncio suave
Da melodia sem conteúdo
Está escrito
Quem não quiser ceder ao canto das páginas
feche os olhos ou tape com cera os ouvidos
Alice Ruiz 


há anos que minha vida é povoada pelas reflexões raciais, esse encontro começou com a capoeira e se aprofundou com a vida na bahia... as andanças pelas ruas de maputo têm me apresentado outras facetas desse jugo colonial expandido pelo mundo... ainda apreendo... mas me ajudam a construir reflexões ontológico-poéticas sobre essas relações... essa madrugada fui acordada pela vibração de uns pensamentos soltos, justamente conduzidos por esses vividos em território moçambicano.... dei-me conta de que as relações raciais são da ordem objetificação... 

vejam, dar-se conta de algo não é descobrir uma coisa nova... todo mundo sabe disso, mas é compreendê-la desde a própria carne, de novo e mais uma vez, já que isso não é novidade. quando os colonizadores europeus escravizavam as pessoas africanas e indígenas, elas as tomavam por objeto que poderia ser negociado, vendido, usado como meio para os mais variados fins. mas se olhamos para a história da subjetividade temos duas coisas: ela é parida com as navegações que descobriram o 'novo mundo' (e, portanto, sustentada pela escravidão), ela surge então diante da descoberta de uma radical diferença e da tentativa de domesticá-la e usurpá-la. mas, se formos a fundo, ela já nasce também, nestas condições como objeto. cada vez me convenço mais de sua artificialidade. não é possível objetificar outro sujeito sem, objetificar-se também... é a relação completamente cindida com a natureza que permitiu a uma certa humanidade esse tipo de atitude. (27/11/2021)

gosto das reflexões de suely rolnik sobre o corpo vibrátil e sobre a diferença que ela faz entre sentir e perceber. nos percebemos a partir de categorias dadas, raça, gênero, sexualidade, nas quais encaixamos as pessoas tão logo as encontramos. sentir é outra coisa, sentir alguém é furar essa camada pré-concebida. sentir é vibrar. só pode acontecer quando há um encontro verdadeiro, os conceitos postos, embora sejam muitas vezes necessários, na maioria das vezes, nos impedem de sentir e também impõem certas lógicas.

aliás, enquanto escrevo isso observo a seguinte cena, uma senhora moçambicana branca, contando para seus convivas que ela pertence à "raça do futuro" pois descobriu que é "misturada" (s.i.c.), que sua avó era negra, enquanto ela fala isso, a empregada, uma senhora moçambicana negra, que ela trata 'muito carinhosamente' pelo diminutivo do nome, como 'se fosse da família', faz a limpeza em silêncio respeitoso a tudo que se passa na casa, essa empregada faz o almoço todos os dias, mas não pode comer da comida, ela traz sua própria comida, por vezes só pão, e faz um intervalo rápido para o almoço no cantinho da lavanderia, pois também não deve poder se sentar a mesa, eu que estou na casa por ter alugado um quarto, uma mulher brasileira e branca, observo a cena engolindo a seco meu chimarão, enquanto escrevo na mesa da sala, no centro de tudo... o papo sobre raças futurísticas se encerrou e me pergunto que será dessa raça do passado... dona zeninha* leva o café da manhã na varanda para dona sereta*.... vibro de nervoso, pois aqui só me resta observar a cena... não há intervenção possível para mim, a despeito do incômodo profundo... sei que dona zeninha me vê como estando no mesmo lugar de dona sereta, mas arriscamos algumas conversas, geralmente, quando estamos sós, ela me contou coisas muito íntimas de sua vida, contou por exemplo que seu primeiro marido deixou dela porque ela não podia ter filhos, mas que depois ela encontrou seu atual, com quem teve seus filhos... quando estamos só nós, às vezes, me parece se abrir uma pequena nesga de encontro, ela se ri das minhas perguntas de estrangeira e da minha recusa em deixar que ela faça certas coisas, me pergunta coisas da minha vida, do meu marido (ela estranha o fato de ser casada e estar aqui sozinha, também comenta, como outras pessoas aqui, o fato de ter essa idade e não ter filhos, coisas de branco, dizem...), da minha comida.... 

nesta casa, como na vida em geral, as pessoas não se percebem, mas se entendem muito bem nos papéis postos... é realmente muito difícil nos encontrarmos... ainda assim, somos seres vibráteis, tudo vibra... tudo é ritmo, isso nos ensina a ontologia africana também... somos força vital... essa força, num determinado ritmo, emanamos para o mundo e também do mundo recebemos... os conceitos, por sua vez, como coisas que estão no mundo, também têm sua energia e sua força e, muitas vezes, me parecem funcionar como barreiras para essa energia trocada entre nós e os demais seres, mas as barreiras nem sempre bloqueiam todo som... todo ritmo... em algum momento, forças podem transcender barricadas e, então, na intuição, finalmente nos encontramos. isso pode acontecer por um fato grave, um acidente ou qualquer outra coisa que nos obrigue a sair do lugar comum, ou pode simplesmente acontecer, por que sim, se nos abrirmos para nossas intuições... hoje (10/12/2021), pouco antes de vir aqui para tornar pública essas inquietações, enquanto eu fazia um almoço para nós, disse a dona zeninha, visto que minha partida é iminente, que sentirei saudades dela, ela disse 'eu também menina' e me perguntou quando eu voltaria, meu coração vibrou, pois foi tocado pela sinceridade do afeto, depois ela pegou a comida que fiz e foi comer no seu cantinho, ela gostou bastante, mas eu gostei ainda mais por nossa troca. perdoem-me se pareço piegas ou mesmo ingênua, certamente eu sou, sei que isso não muda nada as condições de vida postas, nem era pretensão de fazê-lo, mas esses encontros pequeninos me trazem esperança e sobretudo ganas de seguir nessas reflexões e lutar, como e com tanta gente, pela morte de certos conceitos que nos aprisionam... 

* os nomes foram alterados

sábado, 27 de novembro de 2021

Um lugar de encontros

finalmente conseguir verbalizar um pouquinho do que tou vivendo aqui e separar algumas imagens, que compartilho com pessoas do meu agrado que tem me perguntado sobre... um lugar de encontros... Depois de uma semana de chegada, seguindo os conselhos do filósofo, resolvi que não poderia deixar passar a sensação que me atravessa, no instante mesmo do seu atravessar (n'outros tempos eu permitia as palavras saírem com menos censura... hoje já não posso, talvez porque prefira as palavras-gestos, talvez porque tenha mais filtros...) Cheguei em Maputo no dia 18 de novembro de 2021... o trajeto do aeroporto para o lugar que ficaria hospedada já foi invadido por uma uma sensação de ter voltado à Bahia... mais especificamente à São Francisco do Conde, também as imagens me remetiam ao Fernando de La mora - Assunción, acho que é essa espécie de anacronicidade... Tudo aqui me é muito familiar, mas também muito distante.. Quanto mais os dias passam, menos sei o que vim buscar e mais certa estou de que aqui deveria estar, neste momento. Por ora posso dizer que me atravessa a sensação de estar perdida em casa. Aqui as pessoas são muito simpáticas e sempre dispostas a ajudar, obviamente sou atravessada pelo corpo de estrangeira e isso também traz um pesar para as relações. Frequentemente sou a única pessoa branca nos lugares e em muitos a única mulher, isso não passa despercebido, mas creio ainda não ser capaz de decifrar os olhares. A abordagem de vendedoras e vendedores de rua é constante e, confesso, um pouco cansativa... Não tenho ganas de ir aos lugares turísticos, me sinto esgotada espiritualmente quando vou. Acredito que a pandemia tenha agravado a situação aqui, como lá... Nesse sentido é bem parecido com a Bahia, mas aqui é um pouco mais intenso. Maputo me parece ser um lugar de encontros, uma capital cosmopolita, mas ao mesmo tempo com uma certa leveza de cidade do interior. Há muitas coisas interessantes acontecendo na cidade, todos os dias, e vamos, mesmo em pouco tempo, nos familiarizando com os rostos, encontrando as mesmas pessoas nos diversos lugares, é muito fácil estabelecer contatos. Pessoas do mundo circulam por aqui, ainda mais em época de Kinani, bienal de dança contemporânea, que tive a chance de pegar. Aliás, por falar em em encontros, encontrei Luciane Ramos, dançarina, coreógrafa, antropóloga brasileira que admiro muito... Encontrei também as Translocadas (reminiscências dos vividos paraguaios) na versão solo cabo-verdiana... Encontrei a Unilab... Perdi a a língua portuguesa, falo brasileiro, mas disso eu já sabia desde os tempos franceses... Assim vou me perdendo por aqui...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

mês I, ano I da peste - registros literários

no início desta pandemia resolvi encarar um projeto antigo, ler "o tempo e o vento" de veríssimo. encarei os sete volumes, acabei antes de ontem e me deu uma já uma saudades das personagens, da família terra-cambará com quem convivi por esse 10 meses. aprendi e compreendi tanta coisa sobre a conformação histórica e social de nossa região sul, o racismo e a misoginia que consolidaram, mas também a força das mulheres. no fim estava apaixonada por silvia, a única mulher cuja voz se ouviu diretamente sem ser através do narrador. negres e indígenas em geral (homens ou mulheres), estavam na paisagem, mas é preciso um olhar sensível e algum esforço para ver o quanto foram importante para construção deste território. (31/12/2020) redescobri neste tempo de recolhimento a importância da literatura. ler tem me ajudado a suportar a saudade, o medo e, algumas vezes, o tédio. depois de passar por "a rídicula ideia de numa mais te ver" da espanhola rosa montero (todavia, 2019), sobre a história de marie curie com base no diário que ela começou a escrever após a morte de pierre curie. ontem (24/01/2021) finalizei o "meio sol amarelo" de chimamanda adichie, baseado em fatos reais sobre a guerra civil vivida na nigéria na tentativa de se consolidar o estado de biafra. a guerra aconteceu no final dos anos de 1960 (de 1967 até 1970), com a autodeclaração de independência de biafra (república formada majoritariamente por igbos e localizada na região sudeste do país) e foi devastadora... ainda estou pensando em kaienne, olanna, ugwu, odegnibo e richard... não falarei muito a respeito, não hoje, pelo menos, enquanto ainda me sinto um pouco órfã do convívio com eles... quero falar sobre o poder da arte em geral e da literatura em especial. no caso dos livros que tenho visitado no isolamento, o aspecto da guerra, da recessão, da morte, da saudades, das revoluções e mesmo até de pandemias/epimedias rondam a paisagem de modo que isso me permitiu fazer um importante exercício, fenomenológico eu diria, de pensar sobre como seria estar vivendo esse momento em outras condições (como muitas pessoas de fato estão), também ajuda a vislumbrar que pandemônios (sim porque lembremos que no brasil temos essa outra maldição atual) sempre vão e voltam no ciclo da história. me faz sentir também o que tantos movimentos libertários (feminismo, anti-racismo, etc...) já haviam me feito entender, a luta pela liberdade e por direitos nunca está garantida. é preciso estar atenta e forte! não tem sido fácil... a reocupação deste espaço é a vontade de deixar um registro despretensioso, talvez apenas visitado por moscas e borboletas, exercitar minha escrita e guardar alguns esboços destes tempos...