terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"bloganálise"

na aula de ontem, sobre Patočka, o professor Barbaras (meu co-directeur de tese) falava sobre descolar o conceito de movimento de uma relação espacial, porque o movimento implicaria mudança e a mudança nunca está em lugar algum de uma suposta série de sucessão espacial. num exercício de metaforizar e distorcer esta já complicada idéia - totalmente descomprometida com possíveis implicações filosóficas -, digo que a despeito de ter passado o fim de semana quase todo em casa e o dia de hoje sentada nesta mesma cadeira em que agora digito, sinto em mim (diante, dentro, fora, por tudo) uma precipitação que me parece, far-me-á explodir!
como disse que faria, retomei o pensações, na ânsia de literalmente ver toda esta afobação dar n'algum lugar, mostrar-se! reformulei o espaço, reorganizei a proposta e voilá a imagem que escolhi para representá-lo: 

 
 "Jeune Homme nu assis au bord de la mer, figure d'étude" de Jean-Hyppolyte Flandrin.

... eis aqui um jovem nú, diante da imensidão do horizonte e do mar. curvado, com a cabeça apoiada entre os joelhos... é assim que me sinto, sem roupas, sem aparato e com uma tarefa enorme diante de mim, que parece ficar cada vez maior quanto mais eu a execute. mas, ele está sentado sobre suas vestimentas, ele as tirou porque assim o quis, eu também escolhi me pôr nua diante não só do tribunal da academia , mas também dos outros e, principalmente, diante do meu e de minhas escolhas.
elas passam por tantos lugares! estar aqui é um deles e sempre a sensação de que paris é um mar para mim e eu tenho muito medo de me afogar!
bem, mas ao menos eu (finalmente!) fiz a carte louvre-jeunes, que dá direito à acesso irrestrito ao museu do louvre durante um ano e apesar de só me faltarem pouco mais de seis meses achei que valia a pena. lá está a tela de flandrin que pretendo contemplar de perto, quem sabe neste ínterim eu não acabo mergulhando sem nem me dar conta?!

;)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

keep on moving!

eu adoro dançar! samba então!! por isto não resisti ao convite para ir a uma roda de samba ontem! saímos numa trupe super animada aqui da maison e encontramos mais alguns amigos por lá. nem preciso dizer que a brasileirada tomou conta do lugar, mas pude confirmar, cartola estava certo, nosso ritmo "[...] já não pertence mais a praça, já não é mais samba de terreiro, vitorioso ele partiu para o estrangeiro [...]". além de muito divertido foi uma ótima experiência ver pessoas de várias partes do mundo se entregando ao batuque!
delícia!

aproveito a "sacudida nas cadeiras" para agitar as ideias, tenho planos de retomar o outro blog acadêmico e trabalho na tradução de um artigo, além dos demais afazeres ordinários.

recebi e-mails com notícias adoráveis e não perco um 'raquito de sol' quando ele decide nos visitar!

continuo contente e com saudades!

piscadelas ;)



esquentando
vislumbrando a casa cheia!
direto dos anos 80 francesa (?) rebolando o corpo inteiro!
e um oriental que, quebrando tudo, quase saia na ponte!


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

c'est pas mal!

estou a fazer um atelier d'écriture en français ofertado aqui mesmo na cité u extremamente interessante, a cada semana lemos uma pequena parte de texto de um autor 'bem francês' (lévi-strauss; roland barthes, vernant, etc...), a madame brutin, que conduz o curso, nos apresenta sua estrutura e nos contextualiza um pouco, discutimos e depois temos que reproduzir o estilo.

hoje, durante a aula, ela repetiu um comentário que já ouvira de outros professores da língua, a saber, o de que o francês é cheio de eufemismos que servem para atenuar tanto uma crítica que se queira fazer, quanto um elogio. dificilmente um professor dará a nota máxima, assim como nos elogios mais corriqueiros não se diz que o trabalho está bom, mas que ele não está mal (c'est pas mal)!.

isto me soa tão familiar, acho que é porque raramente consigo me avaliar positivamente, em geral, sigo a via da negação. este atelier e muitas das minhas vivências aqui refletem bem este sentimento, de estar sempre aquém do que deveria e ao mesmo tempo de ter 'vindo' longe demais diante disto... então me ponho a correr atrás da "afirmação", talvez eu precise disto para estar em movimento!

e por falar em movimento, andamos bastante desde o último post! passeamos sem rumo por aí, ou melhor, em verdade (devo dizer para 'atenuar' minha culpa), não foi exatamente sem rumo, mas sim em busca de um livro que o felipe precisava e eu acabei encontrando duas obras bem empolgantes! neste percurso demos de 'lado' com a notre dame (que ainda não encaramos) e com outras belezinhas...






domingo fomos ao chateau de versailles conforme havíamos programado e não tenho muito dizer, a imponência é tanta que chega a ser uma afronta, mas o fato é que eu tive uma crise de enxaqueca no meio de passeio, além do mais tinha tanta gente, eu só pensava em ir embora! voltaremos lá, com calma e preparados, esta é a idéia....


... em compensação, no dia seguinte o tempo estava lindo, eu não me fiz de rogada, aproveitei o petit cadeau e fui correr no parc montsouris aqui na frente da cité mesmo. absorvi toda a energia solar e aproveitei a circulação do sangue para fazer girar as ideias!

me sinto melhor e mais disposta!

a saudades continua...

piscadelas ;)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

a paris que eu não vejo, a saudade que sinto...

uma culpa ambulante como eu, não deixaria de se sentir assim, mesmo em paris, ou melhor, principalmente em paris!! me sinto culpada por passear por aí, afinal há muito trabalho a ser feito, me sinto culpada por não passear, afinal, estou em paris!!! já perdi muitos programas interessantes na tentativa ainda frustrada de fazer minha tese nascer! e eis que lendo proust achei a descrição mais-que-perfeita do que vive um doutorando, voilá:

"se ao menos eu pudesse começar a escrever! mas quaisquer que fossem as condições em que abordasse esse projeto (tal como, ai de mim, o de não mais beber, deitar cedo, dormir, passar bem de saúde), com arrebatamento, com método, com prazer, privando-me de um passeio, adiando-o e reservando-o como uma recompensa, aproveitando uma hora de boa saúde, utilizando a inação forçada de um dia de doença, o que acabava sempre de sair de meus esforços era uma página em branco, virgem de qualquer escrita, inelutável como essa carta obrigatória que em certos lances a gente acaba fatalmente por tirar, de qualquer maneira que se tenha previamente baralhado as cartas. Eu não era mais que o instrumento de hábitos de não trabalhar, de não deitar, de não dormir que deviam realizar-se de qualquer forma a todo custo; se eu não lhes resistia, se me contentanva com o pretexto que tiravam da primeira circustância que lhes proporcionava aquele dia para os deixar agir à vontade, eu saía da situação sem maiores danos, não deixava de repousar algumas horas no final da noite, lia um pouco, não prativava muitos excessos, mas se queria contrariá-los, se pretendia ir cedo para a cama, beber apenas água, eles irritavam-se, socorriam-se dos meios heróicos, tornavam-me inteiramente enfermo, via-me obrigado a duplicar a dose de álcool, não me metia na cama durante dois dias, não podia mais ler, e prometia comigo ser mais razoável para outra vez, isto é, menos sensasto, como uma vítima que se deixa roubar por medo de ser assassinada se resistir" (PROUST, M. o caminho de guermantes. in: em busca do tempo perdido. V3)

de todo modo, não tenho feito muitos passeios e talvez por isto não tenho estado inspirada para escrever no blog. os dias estão frios e meu corpo dá sinais de sucumbir a tensão da tese: enxaquecas, gripe, tosse, etc. agravados por uma saudade nova do calor, do sol, da praia, dos amigos e abraços conhecidos do brasil. também tem o fato de que, tão cedo, começo a me despedir desta vida, há alguns dias uma amiga da maison retornou e daqui a pouco vou a mais umfamoso 'queijos e vinhos' para a despedida de outra que se vai. não há tempo de se familiarizar. preciso então é me habituar com a ideia do estar sem lugar e tirar disto algum proveito!!

enfim, nada de mais, vou combater estes sintomas exercitando meu corpo na capoeira e aproveitando as belezuras daqui! já temos um passeio marcado para domingo próximo (primeiro do mês e gratuito): vamos conhecer o imponente chateau de versailles, eu já estive lá, mas apenas nos jardins e no domínio de maria antonieta. não sei se vou gostar, mas sei que vou me impressionar e aí me restará passar por aqui para dividir minhas impressões! quem sabe com isto, meu trabalho não resolva fluir?! j'éspere....

piscadinhs ;) et bisous

p.s.: aos meus 'compatriotas' de cascavel désolée em informar que não só cascavel, mas paris também tem um DEDÃO, muito maior inclusive que o nosso!! resta saber qual veio primeiro...