sábado, 15 de janeiro de 2022

museu da mafalala

 

na sequência de compartilhar memórias e imagens... aqui os registros do dia que conheci o bairro da mafalala, fiz a visita guiada organizada pelo maravilhoso museu comunitário de lá e o que se seguem são minhas memórias do que aprendi naquele dia, sem pesquisas mais aprofundadas...

o guia me contou que o bairro começou a ser ocupado quando a administração colonial portuguesa transferiu a capital de moçambique para lourenço marques (como se chamava maputo à época)... tratava-se de um bairro periférico e uma região pantanosa para onde a população negra foi empurrada, na primeira foto vê-se exatamente a linha que dividia o território, só podiam passar para o outro lado os negros e negras “assimilados”, isto é, aqueles que eram alfabetizados em português e ganhavam documentação com esse estatuto, os demais eram considerados ‘índios’ e corriam o risco de serem capturados e escravizados caso cruzassem esse limite. só lhes eram permitidas construções feitas de zinco, por ser um material menos permanente, já que o lugar poderia ser alvo de especulação a qualquer momento, essas construções são típicas de lá e ainda podem ser encontradas. o bairro segue sendo visto como um lugar violento e de “bandidos” (foi assim que me definiram algumas pessoas com quem conversei), mas é também (o perigo de uma história única) um lugar muito ligado à identidade moçambicana, berço de personalidades importantes que ou nasceram, se criaram ou passaram por lá: josé craveirinha, noémia de souza, samora machel são os nomes que me recordo... além de ser o lugar onde nasceu ‘o brado africano’ jornal criado para que os negros pudessem publicar, visto que lhes era proibido nos jornais oficiais.... além disso, outra coisa que me marcou profundamente foi a visita ao mercado da mafalala e sua história, segundo me contou o guia, a maioria dos comerciantes mora por lá mesmo, nas barracas, então as pessoas podem chegar a qualquer momento para adquirir alimentos a preço baixo, isso é muito importante num contexto de poucos recursos por dois motivos: primeiro as pessoas não têm condições de estocar comida para muitos dias, em geral compra-se o que vai comer na próxima refeição, segundo que, a noite e nos finais de semana, os mercados fecham, então quem não comprou o que comer ficaria sem ter onde conseguir não fosse a possibilidade de bater na porta das feirantes e ainda poder comprar fiado... assim, ali um lugar de resistência e subsistência da comunidade.

teria muitas coisas a falar, mas esse texto já está ficando longo... compartilho algumas informações nos comentários das fotos... só gostaria de fazer um salve a essa iniciativa maravilhosa do museu comunitário que busca valorizar essa outra parte da história da mafalala e criar condições para os jovens de lá também vivam outras histórias... muito tocante isso..

https://photos.app.goo.gl/EhrPgYVowNPbkNHw7

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