na sequência de compartilhar memórias e imagens... aqui os
registros do dia que conheci o bairro da mafalala, fiz a visita guiada
organizada pelo maravilhoso museu comunitário de lá e o que se seguem são
minhas memórias do que aprendi naquele dia, sem pesquisas mais aprofundadas...
o guia me contou que o bairro começou a ser ocupado quando a
administração colonial portuguesa transferiu a capital de moçambique para
lourenço marques (como se chamava maputo à época)... tratava-se de um bairro
periférico e uma região pantanosa para onde a população negra foi empurrada, na
primeira foto vê-se exatamente a linha que dividia o território, só podiam
passar para o outro lado os negros e negras “assimilados”, isto é, aqueles que
eram alfabetizados em português e ganhavam documentação com esse estatuto, os
demais eram considerados ‘índios’ e corriam o risco de serem capturados e
escravizados caso cruzassem esse limite. só lhes eram permitidas construções
feitas de zinco, por ser um material menos permanente, já que o lugar poderia
ser alvo de especulação a qualquer momento, essas construções são típicas de lá
e ainda podem ser encontradas. o bairro segue sendo visto como um lugar
violento e de “bandidos” (foi assim que me definiram algumas pessoas com quem
conversei), mas é também (o perigo de uma história única) um lugar muito ligado
à identidade moçambicana, berço de personalidades importantes que ou nasceram,
se criaram ou passaram por lá: josé craveirinha, noémia de souza, samora machel
são os nomes que me recordo... além de ser o lugar onde nasceu ‘o brado
africano’ jornal criado para que os negros pudessem publicar, visto que lhes
era proibido nos jornais oficiais.... além disso, outra coisa que me marcou
profundamente foi a visita ao mercado da mafalala e sua história, segundo me
contou o guia, a maioria dos comerciantes mora por lá mesmo, nas barracas,
então as pessoas podem chegar a qualquer momento para adquirir alimentos a
preço baixo, isso é muito importante num contexto de poucos recursos por dois
motivos: primeiro as pessoas não têm condições de estocar comida para muitos
dias, em geral compra-se o que vai comer na próxima refeição, segundo que, a
noite e nos finais de semana, os mercados fecham, então quem não comprou o que
comer ficaria sem ter onde conseguir não fosse a possibilidade de bater na
porta das feirantes e ainda poder comprar fiado... assim, ali um lugar de
resistência e subsistência da comunidade.
teria muitas coisas a falar, mas esse texto já está ficando
longo... compartilho algumas informações nos comentários das fotos... só
gostaria de fazer um salve a essa iniciativa maravilhosa do museu comunitário
que busca valorizar essa outra parte da história da mafalala e criar condições
para os jovens de lá também vivam outras histórias... muito tocante isso..
https://photos.app.goo.gl/EhrPgYVowNPbkNHw7
Nenhum comentário:
Postar um comentário