quinta-feira, 3 de maio de 2012

falar é despir-se ou vestir-se

Habitualmente, costumamos pensar na linguagem como uma forma de comunicação de nossos pensamentos. Não quero aqui entrar nas complexas teorias filosóficas a este respeito, são muitas e eu desconheço grande parte da discussão. Quero me ater apenas nessa compreensão e n'algumas derivações vinculadas a mim (psicologismo barato) e ao que tenho estudado ultimamente. Partindo-se desse pressuposto de que a fala indica algo que não é ela, tal como o pensamento do falante ou algo no mundo que ele quer descrever ou apontar, ela é tomada como uma ferramenta e me valho das palavras e das construções que elas permitem para interagir com os outros. A linguagem é, porém, cheia de possibilidades, de equivocidades e, frequentemente, nos enganamos sobre o que "se quis dizer". Esses fatos podem implicar duas coisas: ou bem a ferramenta é inadequada ou foi inadequadamente utilizada, nesse caso, tenho sempre clareza a respeito do que 'penso' e do 'quero dizer', ou bem a cisão entre "pensamento", "intenção" e linguagem não é tão nítida assim, caso em que eu não seria dotada de clareza tão translúcida acerca dos meus pensamentos e intenções.

Por vários motivos que ocupariam muito espaço aqui (que não são tão claros assim) e que se baseiam bastante nas lições merleau-pontianas, gosto da segunda hipótese. Gosto de pensar na fala como não como um instrumento, mas como um comportamento, como uma extensão dos meus gestos e do meu corpo. Quer dizer, falar é como tocar, o tato não é um instrumento da mão, é a própria mão agindo. A fala não é um instrumento do pensamento, é o pensamento ocorrendo (seja no silêncio das minhas divagações, seja no barulho de nossas conversas). Para mim, falar é como tirar a roupa ou colocá-la na frente do outro que quando me fala, me despe ou me veste (e se despe ou se veste). Isso depende da personalidade (ai, que medo) dos participantes da conversa, acho eu... Ou sei lá do que depende, mas não acredito que seja uma decisão que nos cabe...

Quanto a mim, eu falo, falo demais, falo muito, falo de mim, não consigo deixar as palavras guardadas. Logo, estou sempre exposta e assim, também sou despida. não demoro muito a ser desvendada. O que será que quero esconder com tanta exposição? (huum, pergunta para análise futura...) Eu ouço bastante também, sou uma voyeureuse do corpo falado alheio. Certas expressões me lembram certas pessoas que as usam, reparo no modo como são empregadas, nos gestos que costumam acompanhar... Tem gente, entretanto, que não fala em voz alta, que não se expõe tanto, sabe aquelas pessoas que sofrem, amam, odeiam e simplesmente não se deixam apreender no flagra? Algumas são consideradas dissimuladas, premeditam o streaptease para o momento mais oportuno, tiram a roupa, mas nem todas as peças, outras são apenas tímidas ou têm mais dificuldade em se compreender ou se expor...

Há muita sensualidade em falar, estamos sempre gozando e sofrendo, solitariamente ou em multidões, nos excitando, magoando, confortando, indignando. Comendo enfim, porque parece que temos uma fome do mundo e do outro que nosso corpo precisa saciar com os alimentos que o mantém orgânica e simbolicamente.

Eu falo porque tenho fome e calor!


2 comentários:

  1. seu texto fala, Elizia...
    precisa mais?

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  2. Sempre fico confusa quando penso nos paradigmas da linguagem.
    Apesar do constante uso dela, nela - nada me convence.

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