minha filha, leia leminski, é tão absurdo que faz sentido e continue sendo autuada em flagrante, te entrega vai...
trechos de "agora é que são elas":
"Para melhor, para pior, pouco importa, essas palavras, bem e mal, já não faziam diferença, não tinham mais nada a fazer naquele jogo, entende? Eu vivia uma circunstância absoluta, podia sentir os sintomas. Bem que meu analista tinha me prevenido.Mas eu lá tenho cara de quem vai atrás do papo de um judeuzinho da Europa Central, óculos na ponta do nariz, a cabeça cheia de teorias e esquemas, caverna atravessada de teias de aranha, por onde voam vocês, morcegos milenares? A gente arrasta o rabo do dia-a-dia, os dias na esperança de um só dia, um momento máximo, o campeonato nacional, a decisão, a final. Esta era a final.
Daqui para diante, só as florestas, os desertos, os pantanais e os céus da sabedoria.
Medo. Medo, sim. Quando senti medo, quase pude tocar com as mãos suas imensas distâncias, abismos intransponíveis, silêncios insuportáveis, tudo aquilo que a gente sente diante do tigre, tudo aquilo que sobe e desce na espinha quando você pergunta: — É grave, doutor?
O doutor Wiesengrund achava que quem sabe. E acreditava sinceramente que isso tudo tinha cura. Era da velha escola. Um pouco de ar puro, farta alimentação, muita abstinência de lipídios,e uma buceta de vez em quando. Para as senhoras, caralhos, evidentemente. Um pinheirinho de Natal, coruscante esmeraldas e rubis, ao seu lado, a senhora Wiesengrund fazia que sim com a cabeça, a cada palavra que o eminente pentelho regurgitava. A cada minuto que passava, mais aumentava meu medo, e eu ficava cada vez mais feliz de poder gritar “terra à vista”, diante daquele rato que me roía as entranhas, pólo ártico na boca do estômago, meu velho e querido amigo, enfim, um amigo, meu verdadeiro amigo, o pavor. A gente se conhecia desde a infância, o medo cresceu comigo. Quando eu era garoto, meu medo principal era que a casa do meu pai desabasse. Mas era apenas o centro do terror. Deste centro se irradiavam miríades de medos, aquelas coisas que, como uma picada de frio na minha barriga, me enchiam a vida de vibração e significado, os mínimos medos que cintilavam em volta,e se estendiam até os inumeráveis horizontes do desconhecido. De repente, fiquei apavorado A partir desse momento, não senti mais NADA. Estava na companhia de algo maior, muito maior, infinitamente maior que qualquer medo. TUDO tinha mudado"
"O fato é que descobriu que todas as histórias, no fundo,constituem UMA SÓ HISTÓRIA. E aplicou-se a descobrir a cadeiade constantes, a lei lógica e matemática que rege a geração dos enredos, o vertiginoso movimento das constelações que constituem uma intriga.
ResponderExcluirTodo entrecho, para ele, reduz-se à combinação de algumas funções básicas (trinta e uma, se não me engano: um dia,perguntei por que um número tão quebrado, por que não trinta ou quarenta, e ele me respondeu com uma frase latina, saiam da frente, Virgílios e Cíceros, algo assim como “num-merus impardeis placet”,aos deuses agradam os números ímpares, e rematou dizendo que, por mais que a gente tentasse reduzir a realidade e avida aos números pares, elas sempre seriam ímpares, os pares passando de uma mera fantasia humana, o médico e o monstro, o casal perfeito, Sansão e Dalila). Em nosso último encontro, fantasiava uma psicanálise doímpar. — Ménage à trois, professor?
Claro, o romance de Propp não era, apenas, mais uma dessas obras destinadas, apenas,a proporcionar prazer a um leitor eventual.Propp não. Ele era médico. Queria curar.Quer dizer, dizer NÃO ao real, que quer a doença. Não à inexorável lógica última esuprema de todas as coisas e de todos os processos, aquela coisa que quer que a pedra caia quando jogada pra cima, o que quer que seja que quer que as flores nasçam na primavera e no inverno a gente tenha que usar cinco (ímpar!) roupas sobre o peito. De Propp, fica esta idéia, tenho certeza. A saúde através daquilo que ele chamava Funções dos Personagens, e suas cambiáveis, mas previsíveis combinações. Não ficava perguntando se você já tinha alguma vez tido avontade de chupar a buceta de sua mãe para voltar ao útero, e, mamando, acabar com tudo isso, de uma vez por todas. Ou se você tinha fantasiado ver o saco do seu pai servido num prato aomolho pardo. Grande diretor de cena, em um minuto, você já estava passando da Função 1 para a 4, da 3 para a 7, da 6 voltando à 2,uma máscara atrás de outra máscara atrás de. Cada uma das Funções, até 31, tinha um nome e uma definição precisas (uns dois anos para decorá-las todas, no rigorda sua ordem: enquanto isso, quem vai ter tempo para ter problemas psíquicos?).
O sucesso obedecia ao seguinte esquema, este é o esquema do fracasso do herói. A felicidade, lembro, seguia o esquema, personagem sai de casa, enfrenta os perigos do mundo, personagem volta pra casa.
Nesse meio tempo, eu, você, Hércules, Ulisses, Kennedy,Alice, Fausto, Adão, Guilherme Tell, Robin Hood, Frankenstein, o herói, enfim, passava, a gente passava por certas peripécias básicas, sempre as mesmas,só mudava a ordem.
Era confortador. E era apavorante. Gostoso saber que vocêpertencia a uma lógica maior que você, um fundo contra o qualtua figura se projetava. Mas eu me cagava de medo de saber que viver, então, era só isso, e assim, e não de outra forma. Preparava, pouco antes do seu trágico desaparecimento,urna retórica do desejo, que o tempo não permitiu acabar. Da“Retórica do Desejo”, guardo ainda algumas notas, pepitas de ouro recolhidas nas enxurradas da vida."
(Ainda de 'Agora é que são elas')
"Outras vezes, enquanto a gente rolava entre os lençóis,grudados de porra, molhados de todos os líquidos que se trocam na cama, ela me falava, meu pau duro badalando entre suas coxas brancas, louco pra mergulhar de volta aos oceanos primordiais, antes da dor, da angústia e da consciência, mesmo ali me falava de quanto
ResponderExcluiraquilo era importante para ela. Não que quisesse com isso se valorizar para alguém futuro. Já tinha recusado várias propostas, uma, inclusive, milionária. Só que lhe repugnava a idéia de alguém furá-la, dilacerar parte do seu corpo,com um órgão que funcionava como uma arma, a arma primeira e protótipo de todas, a Ur-Waffe,
dizia seu pai, e será por isso que vocês são tão violentos, por que têm essa coisa dura no meio das pernas, e nós já temos essa ferida pronta para receber o golpe, porque é que as coisas tinham que ser tão sangrentas? Dizia, quase chorando, e já caindo de boca, engolindo tudo, duro ou mole,como se voltasse para uma pátria muito querida e muito distante."
"Da vida? Da vida, não fala um actante de Propp. Mas eu falo,falo, falo. Falo até ficar rouco. Até gastar a língua, e ela ficar assimdeste tamanhinho, do tamanho do grelo de Norma Propp. Tem a coragem de cortar a garganta de alguém? Passar a navalha no pescoço de um, abrindo aquela buceta de orelha a orelha? Essa é a única questão
ResponderExcluirrealmente filosófica."
"Já cumpri com meu dever de ser claro. Acho que, a essas alturas, já conquistei o direito de ser obscuro e confuso."
"Tudo estava demorando. Pedi mais um conhaque, peguei a mão de Norma, e fiquei olhando pra ela pensando se não era melhor pedir uma felicidade em vez da sabedoria. Dizem que,nesses casos, os garçons atendem mais depressa."
"Nenhum advogado vai me convencer da minha inocência. Eu
quero ser condenado. Eu não quero a vida eterna, professor. EU QUERO O INFERNO."