... Medianeras e a fotografia de Atget. (para se ler ouvindo http://youtu.be/xiLPaW2TYHU)
Ontem revi o filme Medianeras e hoje descobri (tardiamente eu sei...) a arte de Eugène Atget. Inspirada pela minha amiga Eliana Kuster (arquiteta e apaixonada por História da Arte, pela cidade e por cinema), que vai proferir uma fala sobre o filme em Vitória, resolvi arranhar aqui uma relação que me saltou aos olhos tão logo comecei a investigar a fotografia de Atget.
Na película do argentino Gustavo Taretto dois personagens, Mariana e Martin, enfrentam de formas diferentes a solidão contemporânea petrificada na arquitetura de Buenos Aires. A reflexão mais do que atual sobre nossas edificações, sobre a relação com belo e a moradia está colocada para ambos. Mariana, arquiteta formada, reclama das Medianeras [i] que não deixam a claridade entrar em seu apartamento e a isolam ainda mais do mundo. A ausência de janelas em sua parede aponta para a ausência de janelas da alma que se vê estimulada a relações virtuais, na impossibilidade de comunicação com sujeitos reais (ou ditos reais, mas aí já é outra discussão), não porque eles não existam, mas porque a comunicação está cada dia mais truncada como os milhões de fios e postes que nas cidades nos impedem de ver o sol, apesar de ironicamente nos “aproximarem” das pessoas mais distantes. Martin sofre de fobia social e está em tratamento, também reclama de uma cidade que virou as costas para o seu rio e adere as relações virtuais que não o obrigam a enfrentar seu emparedamento, embora este o afronte o tempo todo. É um filme sobre solidão e amor, sobre a possibilidade de abrir buracos no capitalismo contemporâneo para reencontrar afetos e relações para além ou aquém dele.
Alguns paralelos me parecerem óbvios [não é por isto que não merecem ser analisados, muito pelo contrário] entre seus elementos e os do filme (para além de Buenos Aires ser considerada a Paris sul-americana). Martin está em tratamento de sua fobia e seu psiquiatra lhe recomenda que registre fotograficamente a cidade, a beleza, coisas que dela lhe agradem e que possam fazê-lo gostar de ali estar, momentos perdidos para o olhar desatento. Mariana trabalha como vitrinista e reflete sobre os desejos colocados na vitrine, mas não só, também sobre sua individualidade ali exposta, no anseio de ser talvez vista, através de seu trabalho. Sua dor fica no meio termo entre o coletivo e o individual, não podendo ser apreendida na reflexão. Atget fez uma série de fotos de vitrines parisienses também. Ele se recusava a retratar pessoas, mas retratou os simulacros sociais, aquilo que está ali como modelo a ser desejado, aquilo que coletivamente os indivíduos desejam ou deveriam ser e/ou ter.[ii]

A fotografia - terapia - como arte de guardar o que os indivíduos perdem na cidade, seu “habitat natural”, lugar onde ocupam e se ocupam. Atget já sabia que seria assim, os espaços públicos se tornariam, paulatinamente meios apenas de passagens, para indivíduos que não podem ocupá-los, pois já não são mais sujeitos determinados. O sujeito que Atget tirou da cena, hoje já não sabe mais como se colocar nela. Os meios são muitos, difusos, complexos, confusos e contraditórios. Estamos a um clique dos lugares e pessoas mais distantes e estamos tão longe de nós mesmos visto que nem sequer sabemos onde estamos. A cidade como um palco, um cenário de atuação... A pergunta, conectados a que? A quem? Quem conectadx? Nesse emaranhado de fios é um luxo necessário encontrar algo ou alguém, um projeto, um lugar para repousar.... Um descanso para as infindas urgências sem telos que nos são colocadas e que colamos....



[i] (pared medianera é nome dado àquelas paredes sem janelas dos edifícios, também chamadas de paredes cegas. Geralmente, são as paredes laterais de um prédio, que, por sua proximidade com o edifício vizinho, não se pode "abrir janelas". Muitas vezes, estes espaços são usados para afixar outdoors ou algum tipo de publicidade. Na Argentina a construção de janelas em paredes medianeras é proibida por lei, ainda assim muitos descumprem a ordem, em busca de mais claridade em seus apartamentos. Naquele país as medianeras são fontes de muitas brigas judiciais)Fonte http://pt.wikipedia.org/wiki/Medianeras
[ii] Ver mais sobre http://lounge.obviousmag.org/f64_straight_writing/2012/11/as-vitrines-de-eugene-atget-a-cidade-o-fotografo-e-seus-simulacros.html
Ontem revi o filme Medianeras e hoje descobri (tardiamente eu sei...) a arte de Eugène Atget. Inspirada pela minha amiga Eliana Kuster (arquiteta e apaixonada por História da Arte, pela cidade e por cinema), que vai proferir uma fala sobre o filme em Vitória, resolvi arranhar aqui uma relação que me saltou aos olhos tão logo comecei a investigar a fotografia de Atget.
Na película do argentino Gustavo Taretto dois personagens, Mariana e Martin, enfrentam de formas diferentes a solidão contemporânea petrificada na arquitetura de Buenos Aires. A reflexão mais do que atual sobre nossas edificações, sobre a relação com belo e a moradia está colocada para ambos. Mariana, arquiteta formada, reclama das Medianeras [i] que não deixam a claridade entrar em seu apartamento e a isolam ainda mais do mundo. A ausência de janelas em sua parede aponta para a ausência de janelas da alma que se vê estimulada a relações virtuais, na impossibilidade de comunicação com sujeitos reais (ou ditos reais, mas aí já é outra discussão), não porque eles não existam, mas porque a comunicação está cada dia mais truncada como os milhões de fios e postes que nas cidades nos impedem de ver o sol, apesar de ironicamente nos “aproximarem” das pessoas mais distantes. Martin sofre de fobia social e está em tratamento, também reclama de uma cidade que virou as costas para o seu rio e adere as relações virtuais que não o obrigam a enfrentar seu emparedamento, embora este o afronte o tempo todo. É um filme sobre solidão e amor, sobre a possibilidade de abrir buracos no capitalismo contemporâneo para reencontrar afetos e relações para além ou aquém dele.
Eugène Atget (1857-1927) é considerado o pai da fotografia moderna, foi um dos pioneiros no uso do recurso fotográfico para registrar paisagens deslocando os sujeitos de cena. Ele não fotografa retratos, mas o vazio das ruas parisienses quando as pessoas estão ausentes. A solidão dos objetos, das vitrines. Ele também é considerado como o primeiro surrealista e teria inspirado esse movimento.

A fotografia - terapia - como arte de guardar o que os indivíduos perdem na cidade, seu “habitat natural”, lugar onde ocupam e se ocupam. Atget já sabia que seria assim, os espaços públicos se tornariam, paulatinamente meios apenas de passagens, para indivíduos que não podem ocupá-los, pois já não são mais sujeitos determinados. O sujeito que Atget tirou da cena, hoje já não sabe mais como se colocar nela. Os meios são muitos, difusos, complexos, confusos e contraditórios. Estamos a um clique dos lugares e pessoas mais distantes e estamos tão longe de nós mesmos visto que nem sequer sabemos onde estamos. A cidade como um palco, um cenário de atuação... A pergunta, conectados a que? A quem? Quem conectadx? Nesse emaranhado de fios é um luxo necessário encontrar algo ou alguém, um projeto, um lugar para repousar.... Um descanso para as infindas urgências sem telos que nos são colocadas e que colamos....



[i] (pared medianera é nome dado àquelas paredes sem janelas dos edifícios, também chamadas de paredes cegas. Geralmente, são as paredes laterais de um prédio, que, por sua proximidade com o edifício vizinho, não se pode "abrir janelas". Muitas vezes, estes espaços são usados para afixar outdoors ou algum tipo de publicidade. Na Argentina a construção de janelas em paredes medianeras é proibida por lei, ainda assim muitos descumprem a ordem, em busca de mais claridade em seus apartamentos. Naquele país as medianeras são fontes de muitas brigas judiciais)Fonte http://pt.wikipedia.org/wiki/Medianeras
[ii] Ver mais sobre http://lounge.obviousmag.org/f64_straight_writing/2012/11/as-vitrines-de-eugene-atget-a-cidade-o-fotografo-e-seus-simulacros.html













Benjamin dizia que Atget fotografava as ruas de Paris como se fossem o local de um crime, o seu registro fotográfico serviria para captar, mais do que o real, os seus indícios.
ResponderExcluirNesse sentido, acho que sim, Medianeras exerce esse mesmo papel: capta os indícios de uma cidade que não conseguimos mais compreender em sua totalidade. Em Atget a cidade está despida de pessoas, não se vê ninguém. No filme de Taretto está transbordando de gente, mas ninguém se vê.
Nos dois, a cidade de pedra define, estabelece, limita as relações entre os que a ocupam. Porém, em Atget a cidade ainda pode ser, ainda procura suas possibilidades, ainda oscila entre as várias formas sociais que poderá apresentar. Em Taretto ela é, irreversívelmente, Cidade. E esta, por vezes, parece não caber as pessoas. A cidade de pedra fica tão impositiva que sufoca a cidade de carne.
Adorei seu texto! E adorei pensar sobre as possibilidades de relação entre o filme e as imagens de Atget.
Beijos!
Eliana, foi justamente através do Benjamin que descobri Atget! Concordo contigo e intuo que Atget registrou o início do descentramento do indivíduo na passagem da sociedade moderna para a 'pós-moderna', ou contemporânea que o Medianeras retrata tão bem. Esta intuição está baseada na leitura de um texto de Stuart-Hall, "A identidade cultural na pós-modernidade". Ele relata brevemente a imposição do sujeito moderno (iluminista como ele chama) e sua queda ou descentramento. Aos poucos ele deixa de figurar na cena como autônomo e passa a flutuar entre uma infinidade de identificações possíveis. Realmente, agora ele figura como multidão e pode ocupar diversos papeis na cidade. O fim da metafísica do sujeito é também o furo no nosso barco, ainda que ele não fosse o que se mostrava, ao menos tínhamos um local seguro do naufrágio. O negócio agora é aprender a nadar no mar de possibilidades que a contemporaneidade nos oferece!!
ExcluirMuito confuso?