terça-feira, 22 de março de 2011

vrai ou faux ?

Esta semana foi bastante intensa, entre estudos e passeios nem vi o tempo passar. Chego a este fim de domingo (em que começo a escrever, certamente sem terminar) cansada, mas satisfeita e com boas expectativas para os próximos dias...

 Hoje saímos de casa com a intenção de ir ao Louvre, só para passear e aproveitar o lindo dia de primavera. Acabamos parando num sebo perto do jardim de Luxembourg. Depois de comprar alguns clássicos da literatura e do jazz pela bagatela de 0,50E, re-encontramos por ali vários pequenos cinemas antigos, que exibem filmes também já "velhos". Optamos por ver "Rashomon" do Kurosawa (no meu caso, rever depois de muiiitos anos). Belíssima obra que me deu tanto a pensar...
Para mim, foi inevitável uma conexão com o espetáculo de mágica "vrai ou faux ?" ("verdadeiro ou falso?"), que assistimos aqui na cité terça-feira passada.

Na película do diretor japonês vemos uma mesma (?) história sendo contada várias vezes de acordo com a ótica distinta de cada um dos envolvidos. Trata-se do que poderíamos chamar de uma “meta-narração”: três homens se abrigam da tempestade numa construção em ruínas. Dois deles acabaram de sair de um julgamento e passam a narrar o que ouviram dos depoentes.  Um distinto senhor fora assassinado e cada envolvido no fato contava uma versão diferente. Desde então o filme é uma reconstrução de cada perspectiva. Nenhuma, nem mesmo a do espírito da vítima que fala através de uma médium, é equivalente. A discussão toda se estabelece em volta de como confiar uns nos outros, considerando que todos poderiam e pareciam dizer a "verdade".


Já o espetáculo "Vrai ou faux" de Thierry Collete (uma espécie de "degustação" que ele nos proporcionou para o festival des-illusions que ocorrerá no Théâtre de la Cité) é aberto com apresentação ilusões de ótica visando questionar o estatuto de nossa percepção. Ao longo da apresentação o artista nos conduz pelos surpreendentes caminhos das "adivinhações" de palavras escondidas em textos, ou das respostas dos espectadores aos seus diversos estímulos. O ponto alto é quando ele faz uma voluntária de olhos vendados crer que sentia o toque de uma pena que em verdade tocava a face do mágico! Ao fim da apresentação ele nos propõe uma discussão sobre verdade e falsidade, razão e "loucura" e entre outras coisas disse uma que me chamou muito a atenção: "savoir quelque chose, ça veut dire qu'on cesse d'y croire", algo do tipo: "conhecer algo, isto significa que deixamos de nisto acreditar".
Quando vemos um truque, nos  é inevitável um encanto a ponto de, ainda que involuntariamente, crermos nele como se fora mesmo mágica! Se nos é revelado o segredo, se o conhecemos, deixamos enfim de crer. Bem, falar aqui sobre o que acontece quando se trata daquelas ilusões de ótica, as quais não deixamos de ter mesmo depois de "apurar" nossos sentidos pelo conhecimento seria entrar no tema na minha tese (talvez por isto tenha gostado tanto;) ) e eu não quero chateá-los com isto. 

Mas, afinal o que o filme e o espetáculo têm em comum? Ora, ambos questionam nossas noções de verdade, ou talvez nossa construção dela! No caso do primeiro se abalaria o que poderíamos chamar de verdades  ou valores "morais" e "éticos" e, quiça de um modo profundo, a verdade sobre nós mesmos, o que somos, como nos vemos, o que os outros "sabem" de nós. Quem pode dizer que algum dos personagens mentia? E mesmo que o fizesse, o que seria a mentira e a verdade de nossas relações mútuas? Ora, se nem mesmo em nossas percepções podemos "confiar"... E qual o estatuto de mentira e verdade para as coisas que percebemos? O fim do filme é belo (não, não vou contar) e nos induz a pensar que apesar do abalo das nossas convicções mais íntimas acerca das visões de mundo que criamos ou que aceitamos dos outros, devemos seguir a vida confiando na humanidade e nas nossas impressões. Uma solução pragmática (talvez humeana, não?), mas eu diria "querida"!


Bem, como previsto é terça-feira noite e eu me encaminho para encerrar este post. 
De fato, os dias andam cheios, mas apesar disto (ou por conta disto!) tento me permitir mais e sem tanta culpa me perder pela cidade e por suas inesgotáveis opções. Estes dias fui ao Louvre só para ver a tela do Flandrin, vi e gostei, vi também outras coisas (ficamos na parte das esculturas gregas e romanas) impressionantes. O trabalho anda inspirado assim como as questões que me ponho sobre ele e, no limite, sobre mim! Acho que referências ao tema de hoje serão recorrentes...

Piscadinhas sempre com saudades!

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