segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

feminismos e feminis(moi)

Depois de assistir à péssima montagem de "A sociedade" de Virgínia Wolf, tomei fôlego para começar rabiscar este post que já devo faz algum tempo. Não vou aqui comentar, ao menos não agora, porque a montagem foi terrível, tenho a impressão que este será um longo assunto e não quero desperdiçar a atenção de quem me lê...

Já faz algum tempo que, depois de compartilhar um link no facebook, entrei em polêmica com uma amiga e prometi à ela elaborar melhor minhas impressões acerca do tema. Bem, primeiramente, porque eu me considero e não me considero feminista? A razão para não me considerar é simples, há uma discussão científica muita profunda e complexa no que tange a questões de gênero e aos problemas relativos ao feminismo que eu simplesmente desconheço, acho muito sério, respeito e por isto mesmo não levanto a bandeira de argumentos que me escapam. Se, entretanto, tomarmos pelo conceito "feminismo", tal como vulgarmente apreendemos, a defesa da igualde de direitos (e obrigações) para os diferentes gêneros, a luta pela "desmarginalização" da mulher sexualmente ativa ou impositiva, então, posso dizer que eu sempre fui feminista. Desde que me dei conta dos julgamentos morais que distinguiam o que pode ou não fazer a mulher daquilo que é concedido (e mesmo incentivado) ao homem. (Por isto o título "...feminis(moi), o meu feminismo, ou o feminsmo tal como eu o acolho)

Veja bem, eu acredito que haja diferença de gêneros, até concedo que há um modo de ser que pode ser atribuído ao "feminino" e outro ao "masculino", no entanto, não vinculo tais distinções ao sexo da pessoa, entende? Quer dizer, um homem pode ser feminino e vice-versa (eu mesma já fui acusada de ser o homem de algumas relações rsrs), sem que isso indique opção sexual, o que já é uma outra discussão.

Apesar desta tendência, nunca me inseri em debates acadêmicos nessa área, porém, sempre curiosa, dispendo algum tempo lendo sobre na internet. Incomodava-me o o machismo, mas, nunca pensei nisto com um problema grave, o levava como uma questão cultural que mulheres inteligentes e independentes poderiam simplesmente ignorar. Bastava nos associarmos a homens e mulheres sem preconceito e nos afastarmos dos machistas. Algo diferente, acreditava eu, do que acontece com o preconceito racial e com a homofobia, que são motivos de ameças, exclusão e até mesmo assassinatos. Recentemente descobri o blog da Lola que traz algumas postagens interessantes sobre o assunto e graças a uma delas me dei conta de uma coisa: o problema aqui é tão grave quanto! Os acontecimentos recentes, tais como o da discussão que mobilizou as redes sociais acerca do caso de estupro do BBB e a sucessão de ataques contra mulheres que fez as estudantes da Unicamp darem início aos protestos da "marcha das vadias" contribuíram para minha mudança de pensamento em relação a esta discussão. O que me chamou a atenção foi o modo como tais eventos foram interpretados, a mania de imputação de responsabilidade à mulher pela violência sofrida me fez rever meus conceitos. Ora, o machismo é sim uma coisa cultural, mas a cultura é historicamente datada e sofre mudanças, logo, vale fazer pressão nos debates para contribuir com uma se acreditamos na sua pertinência.

Por isto mesmo, me animei a escrever esta prometida postagem refletindo acerca do polêmico post: "Mulher que dá na primeira noite... essa é para casar" do blog "papo de homem". Quando eu partilhei este link no face, confesso que não refleti demais acerca do texto de autor anônimo e mesmo reconhecendo ali alguns problemas (a última parte é lamentável), achei interessante que um homem pensasse sem preconceito acerca da autonomia sexual feminina e que, dentro das suas próprias limitações, aceitasse e mesmo até desejasse casar-se com uma mulher que age livremente a despeito dos preconceitos que ainda existem neste campo. Claro, não dá para ignorar que este cara ainda faz a classificação ridícula entre quem é e quem não é para casar! Ok, talvez ele nem tenha se dado conta de que, justamente a mulher que "dá" na primeira noite, ou em qualquer noite, dia e horário que lhe convenha não está nem aí para este critério de classificação ou sequer tenha a intenção de se casar um dia... Ademais, como bem salientou minha amiga Ana, "o corpo é meu e não preciso de autorização de homem nenhum para fazer dele o que bem quiser" (ou algo do tipo). Concordo plenamente, mas, considero que, desde uma vez que isso foi esclarecido a pessoa (homem ou mulher) tem o direito de estabelecer critérios para eleger seu cônjuge. É neste ponto, e somente nele, que residiu meu interesse em partilhar o tal link, se me fosse solicitado quais são os meus critérios para uma escolha como essa, certamente constaria dentre eles o de alguém que compreendesse esse direito e não julgasse moralmente as mulheres por exercerem-no. Aí o jogo se inverteria e eu escreveria o post "Homem que não julga mulher que transa quando quer... esse é para casar"". Tudo isso claro, hipoteticamente! rsrs

Para encerrar por hoje, gostaria de expor aqui uma última impressão. Fico muito incomodada com a expressão "dar". Ela é bastante pejorativa, parece querer implicar uma "facilidade" uma concessão sem critérios, mais do que isto, uma oferta desesperada. Há um juízo de valor aí implicíto, atribuí-se uma passividade a quem "dá", a pessoa é escolhida, está no expositor para ser "pega" por aquele que vai "comê-la". Daí deriva a expressão "fácil" atribuída às mulheres que "dão" mais e para mais caras. Elas são facilmente pegas, dão sem exigir muito... Ora, numa relação os envolvidos dão e recebem, oferecem seus corpos para o prazer que o encontro proporciona, optam por estarem ali. Então, meu filho, se uma mulher transa contigo, é porque ela te escolheu, seja por teus belos olhos, seja por gostar de sexo apenas... Ambos são fáceis ou difíceis (o que não é, absolutamente, critéro de valoração moral) dependendo do tanto de investimento que a empreitada demandou e ninguém está "dando" seu corpo, no máximo "emprestando" para a troca de prazer.

Enfim, eis minha estréia nas discussões sobre o feminismo, espero escrever mais vezes sobre o tópico e um dia me aprofundar acerca dele.

;)

4 comentários:

  1. Elizia,

    encontrar você, no blog, no bar, no face, na mesa do café, é sempre um deleite pra mim... Parabenizo o post. O parágrafo sobre a expressão "dar" está formidável!

    Ana

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    1. Obrigada Ana, nossas conversas são sempre muito produtivas, ou não! rsrs Sempre muito agradáveis, com certeza! Aprendo muito contigo!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. "Homem que não julga mulher que transa quando quer... esse é para casar" Adorei!!

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